quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Uma interpretação naturalística do conceito yorùbá do Orí

Adébọ́lá Babatúndé Ékanọ́lá[1]

Tradução de Mário Filho[2]

Resumo
Orí é um conceito central na concepção de personalidade humana em língua yorùbá. Dizem que os yorùbás (Nigéria) acreditam que a personalidade de cada indivíduo é um Orí predeterminado. O autor mostra que os relatos disponíveis de Orí constituem uma explicação inadequada desse determinismo - o que é popularmente traduzido como destino - no pensamento yorùbá. Em vez da predeterminação espiritualista da personalidade implícita na ideia de destino, ele oferece uma interpretação naturalista dos conceitos yorùbá de Orí. Para isso, ele analisa criticamente o mito yorùbá da criação da pessoa humana, argumentando que esse relato não deve ser considerado literalmente, mas deve ser entendido metaforicamente. Além disso, ele argumenta que um sentido plausível no qual os indivíduos podem ser considerados livres, o que ainda é consistente com o conceito yorùbá de Orí, é que cada pessoa tem o poder de introduzir uma nova energia ou fazer um esforço de vontade de transcender fatores ambientais ou hereditários que possam restringir, obrigar ou predispor a ele a fazer ou não certas coisas.

Abstract
Orí is a central concept in yorùbá-language conception of human personality. The yorùbá (Nigeria) are said to believe that the personality of each individual is predetermined Orí. The author shows that the available accounts of Orí constitute an inadequate explanation of this determinism - what is popularly translated as destiny - in yorùbá thought. In place of the spiritualistic predetermination of personality implied in the idea of destiny, he offers a naturalistic interpretation of the yorùbá concepts of Orí. In order to do so, he critically analyses the yorùbá myth of the creation of the human person, arguing that this account is not meant to be taken literally but has to be understood metaphorically. Furthermore, he argues that a plausible sense in which individuals may be said to be free, which is still consistent with the yorùbá concept of Orí, is that each person has the power to introduce a new energy or to make an effort of the will to transcend environmental or hereditary factors that may want to constrain, compel or predispose him or her to do or not to do certain things. 


Ilé Orí - Copyright © 2019 American Museum of Natural History


Introdução

Orí é um conceito central na linguagem yorùbá no que tange à concepção da personalidade humana[3]. Os yorùbá dizem acreditar que a personalidade de cada indivíduo é predeterminada pelo Orí. Neste paper, pretendo mostrar que as definições existentes sobre Orí constituem uma explanação inadequada de seu determinismo – que é popularmente traduzido como destino – no pensamento yorùbá. Em lugar da predeterminação espiritual da personalidade imbricada na idéia de destino, gostaria de oferecer uma naturalista e humanista definição de Orí.

O mito da Criação

Uma das versões yorùbá para a criação do homem defende que o corpo humano (ará) foi moldado por Òrìṣà-nlá (uma das deidades no sistema religioso tradicional yorùbá - Òṣàlá) de barro. Após ter sido moldado é que o corpo sem vida é infundido com o ẹ̀mí (vida ou sopro de vida) por Olódùmarè (Deus Supremo). O corpo (ará), nessa fase, é vivificado e enviado a Àjàlá (deidade responsável pela confecção do Orí) para selecionar um Orí[4].

O ato de selecionar um Orí na casa de Àjàlá possui três aspectos importantes[5]: 

- Supõe-se ser uma livre escolha. Todos seriam livres para escolher qualquer Orí disponível na “fábrica” de Àjàlá; 

- O Orí selecionado determina, final e irreversivelmente, o curso de vida e a personalidade de seu possuidor;

- Cada indivíduo ignora o conteúdo ou qualidade do Orí escolhido, isto é, a pessoa que faz a escolha não sabe se o destino que acompanha aquele Orí é bom ou mau. 

Outros termos usados para simbolizar o Orí incluem: 

- Àkúnlẹ̀yàn: aquele que é escolhido ajoelhando-se; 
- Ìpín-Orí: aquele que é atribuído;
- Àyànmọ́: aquele que é escolhido ou afixado por si mesmo; e
- Àkúnlẹ̀gbà: que é recebido ajoelhado.

Além da definição citada anteriormente para a determinação do destino feito através da escolha do Orí na casa de Àjàlá, existem outras versões da crença yorùbá para a determinação do destino. Uma dessas versões afirma que foi Olódùmarè quem conferiu o destino a cada um, o qual é duplamente selado, mais tarde, por Oníbodè (o guardião do portão entre o céu e a terra).[6] No entanto todas as versões disponíveis concordam que o destino é determinado pelo Orí, escolhido ou imposto sobre a pessoa, também concordam que antes das pessoas chegarem no Aiyé (mundo), através do nascimento, estas são totalmente ignorantes do tipo de destino que as espera.

Uma análise crítica do Mito

Nossa proposta é nos concentrarmos na versão do mito criacional que sustenta que o Orí é selecionado na casa de Àjàlá. Nosso objetivo é ver quais implicações filosóficas derivam a partir dele, já que outras versões do mito podem trazer diferentes implicações filosóficas. Muitos dos estudiosos que escrevem sobre o conceito yorùbá da personalidade humana parecem aceitar uma versão ou outra da definição mítica da criação dos seres humanos como descrição do que acontece antes do nascimento de cada pessoa. Alguns filósofos africanos sequer usam o mito criacional como uma premissa primária da qual muitas conclusões sobre a natureza e o significado da vida humana derivam. 

Essas definições míticas são sujeitas, geralmente, a duas críticas. A primeira é que elas levam consequências incompatíveis, enquanto a segunda é que elas não podem ser compreendidas literalmente, mas através de um entendimento alegórico. A seguir apresentamos alguns problemas decorrentes da interpretação literal da versão do mito criacional de Àjàlá: 

- A maneira pela qual os yorùbá dizem perceber a relação entre o Orí em uma mão, e o destino e a personalidade individual em outra, pode não ser consistentemente segura para algumas pessoas. Por exemplo, uma pessoa deformada fisicamente teve seu destino e personalidade determinada por seu corpo deformado e não por uma escolha pré-natal do Orí. Na cultura yorùbá pessoas como os abúkè (corcunda), aro (aleijado), afin (albino) e àràrá (anão) são todos chamados de eni-Òrìṣà (pessoa especial aos Òrìṣà). São-lhe negadas, por força de suas deformidades físicas, todas as oportunidades que são geralmente abertas às pessoas normais. Não lhes é permitido, por exemplo, a função de chefes de família, chefes de aldeia, ou reis. Após a morte, não podem se tornar ancestrais porque não são enterrados no lugar da tumba familiar, mas na floresta má[7]. 

Ainda, em sociedades que não possuem regras estabelecidas pelas quais as deformidades físicas são tratadas, aqueles que as possuem continuam a ter grandes limitações por causa de suas enfermidades. Um aleijado, por exemplo, nunca poderá aspirar a ser o velocista mais rápido, o melhor nadador ou melhor jogador de futebol. Neste diapasão, nós podemos dizer que um anão não pode estar destinado, pelo seu corpo deformado, a ser um velocista, um nadador, ou futebolista. Parece-nos inaceitável atribuir pelo menos alguns dos aspectos do destino de um anão à escolha pré-natal do Orí, porque a deformidade que o limita e molda seu destino é um aspecto de seu corpo o qual, indo pelo mito da criação yorùbá, foi formado antes da criação do Orí. 

Apesar das alegações que os yorùbá creem que a escolha pré-natal determina, finalmente, o destino e a personalidade do homem (usado genericamente) na terra, Ìdòwú, Mákindé, e Gbádégesin argumentam que os yorùbá acreditam que há alternativas pelas quais um Orí ruim pode ser mudado para melhor e um Orí bom pode ser mudado para pior. Eles afirmam que os yorùbá tem uma opinião de que um mau Orí pode ser melhorado por meio da consulta a Ọ̀rúnmìlà (uma deidade do pensamento tradicional yorùbá), ètùtù (sacrifício) e trabalho duro. Reciprocamente, um Orí originalmente bom também pode ser alterado para mau por ações de pessoas maldosas (tais como Àjẹ́), preguiça ou mau-caráter[8].

A alegação que o destino pode ser alterado parece incoerente com a ideia yorùbá de predestinação, a qual se baseia na crença que a escolha pré-natal do Orí determina, final e irreversivelmente, o destino de e a personalidade de cada ser humano. A opinião de que esse destino é irreversível se reflete em muitos provérbios e ditos yorùbá. Por exemplo, os yorùbá frequentemente dizem que aquilo que o Orí veio adquirir deve ser definitivamente alcançado[9]. Outros provérbios yorùbá aludem à inalterável natureza do destino:

Àkúnlẹ̀yàn ni àdáyé bá, àkúnlẹ̀yàn pin, àdáyé tan ojú nro ni. Àyànmọ́ o gbógun (Nós nos ajoelhamos e escolhemos uma parte, nós entramos no mundo e não estamos contentes. Aquilo que é afixado não pode ser com sabão)[10]

Além disso, indo pela definição de destino como “o que tem que acontecer não pode ser mudado ou controlado”[11], parece improvável que aquilo que é predestinado possa ser alterado. Consequentemente, é contestável que uma crença consistente na predestinação seja sinônima de fatalismo, que é o ponto de vista de que tudo o que acontece é inevitável e não pode ser de outra forma.

Ironicamente, no entanto, muitas das definições existentes do sistema de crença yorùbá sugerem que os yorùbá se amparam nessas crenças incompatíveis. Dizem acreditar que uma seleção pré-natal do Orí determina a personalidade individual e o curso da existência e, também, que o destino do homem pode ser afetado negativa ou positivamente[12]. Enquanto alguns estudiosos tentam explicar como os yorùbá podem aferrar-se consistentemente nessas crenças aparentemente contraditórias, outros têm recorrido a uma interpretação fatalista da ideia yorùbá de destino. Em uma interpretação fatalista, Abímbọ́lá, por exemplo, afirma categoricamente que nem mesmo os deuses podem mudar o destino humano. Mákindé, apoiando a interpretação de Abímbọ́lá, afirma que o melhor que os deuses poderiam fazer, em relação ao destino humano, seria, meramente, guiar sua realização[13]. Disso implica que os humanos não são agentes livres, mas estão, simplesmente, agindo dentro de um roteiro previamente escrito. Dessa forma, eles não podem ser moralmente responsáveis por seus atos.

Para evitar a implicação acima, Mákindé rejeita a interpretação fatalista e introduz sua débil concepção de Orí, que o vê como uma mera potencialidade[14]. Ele afirma que o Orí escolhido no céu é apenas uma potencialidade que precisa fazer algumas coisas antes que seja atualizado. Por isso, necessita trabalhar duro, consultar Ọ̀rúnmìlà que lhe indicará os sacrifícios necessários de forma que um Orí potencialmente bom seja trazido a sua fruição ou um Orí potencialmente mau seja melhorado.

O problema com a concepção de Orí feita por Mákindé, como uma mera potencialidade, parece ser incompatível com a idéia de predestinação, a qual ele busca defender. Predestinação, como bem observado pelo mesmo Mákindé, “pressupõe que uma posição ocupada na terra, bem como as atividades que levaram ou que possam levá-lo a uma posição tal já foram pré-ordenadas no céu e a situação não poderia ser ou ter sido outra”[15]. Isso sugere que todas as coisas identificadas como obrigatórias para realizar uma boa potencialidade do Orí ou melhorar uma ruim são, realmente, como parte do cumprimento de seu destino, quer as atividades do dia-a-dia ou aquelas que tenham sido pré-ordenadas para um indivíduo específico; quando um indivíduo trabalha duro ou consulta o oráculo de Ọ̀rúnmìlà, antes de ser bem-sucedido na vida, ele está meramente seguindo o seu destino. Ele não teria trabalhado duramente ou se consultado com o oráculo de Ọ̀rúnmìlà se isso já não lhe tivesse sido pré-ordenado. Dessa forma, as ações ou omissões, as quais Mákindé classifica como atos de livre vontade em seu esforço em tornar a crença yorùbá na predestinação coerente[16], devendo ser, realmente, classificada como parte daquilo que foi pré-determinado. Essas ações podem ser descritas como livres somente se desistirmos completamente da noção de determinismo pré-natal. Dessa forma, parece-nos que a noção de livre arbítrio e predestinação não podem, coerentemente, ser usadas, em conjunto, num discurso sobre o conceito yorùbá de Orí.

Essencialmente, predestinação equivale a fatalismo, enquanto que uma predestinação não realizada equivale à negação da predestinação. Ou nós afirmamos que há predestinação, no sentido de que tudo aquilo que acontece a um indivíduo ou qualquer passo que ele dá na vida são meramente manifestações de seu destino, ou nós afirmamos que não há, em absoluto, predestinação. Portanto, como Mákindé possui uma débil concepção de Orí, retrata os yorùbá como incoerentes com sua crença na predestinação, acrescenta que eles não crêem realmente na predestinação, mas aparentam crer.

Adicionalmente, Mákindé não se apercebe que dizer que alguma coisa está predestinada é completamente diferente de dizer que há um potencial para uma coisa ou outra. Por exemplo, uma pessoa pode ter um potencial para ser um bom advogado, um político proeminente, ou um distinto acadêmico sem, contudo, tornar-se qualquer uma dessas coisas. Mas, quando dizemos que uma pessoa é predestinada a se tornar alguém, nós não estamos dizendo que ela tenha, meramente, um potencial. Ao contrário, estamos dizendo que tornar-se alguém é inevitável e que não pode ser de outra maneira. Portanto, é um erro definir predestinação como uma mera possessão de potenciais.

Outra dificuldade decorrente da explicação mítica da natureza e origem do homem encontra-se na área do livre-arbítrio e da responsabilidade moral. O mito afirma que a seleção pré-natal do Orí é uma livre escolha, em virtude de que uma pessoa pode ser responsável moralmente por sua personalidade e pelo curso da sua vida. Mákindé, no entanto, argumenta, convincentemente, que não há livre-arbítrio na seleção do Orí na casa de Àjàlá[17]. Seu argumento é assim esboçado: primeiro, todas as escolhas são preferenciais; segundo, os tipos de Orí, bom ou mau, são desconhecidos às pessoas que os selecionam; terceiro, se um indivíduo sabe os tipos de Orí que existem, ele ou ela preferirá o bom ao ruim, portanto, a seleção pré-natal alegada não é um livre-arbítrio; e, por último, nós, certamente, não podemos esperar que ninguém seja moralmente responsabilizado pela qualidade do Orí selecionado, ou pelas consequências que dela possam advir.

O argumento anterior de Mákindé parece estabelecer que a noção de livre-arbítrio e responsabilidade moral não pode ser unida em qualquer discurso a respeito do conceito yorùbá do Orí. Mas, desde que o yorùbá, em seus afazeres quotidianos, entenda a responsabilidade moral e livre-arbítrio em conjunto com a crença na seleção pré-natal do Orí, precisamos fazer novas tentativas para identificar o sentido em que essas noções e crenças podem ser unidas.

Isso nos leva a uma tentativa diferente de conciliar as noções de livre arbítrio, responsabilidade moral e determinação pré-natal do destino por Olúṣẹ́gun Ọladipọ.[18] Ele concorda com a visão de que o destino humano é determinado por uma seleção pré-natal do Ìpín-Orí depois de ser "duplamente selado" tanto por Olódùmarè quanto por Oníbodè.[19] Ele, no entanto, descreve o Orí, simbolizando o destino, como uma "aliança ou acordo com Olódùmarè sobre o que uma pessoa pretende se tornar no mundo".[20] Orí é visto como "uma série de eventos acordados em uma aliança com Olódùmarè".[21] Concebido dessa maneira, Ọladipọ argumenta que é significativo e consistente para os yorùbá dizer que o destino de uma pessoa pode ser mudado por qualquer uma das várias maneiras que identificamos anteriormente.[22] O que ele está dizendo, em essência, é que um acordo anterior entre uma pessoa e Olódùmarè, que foi duplamente selado por Olódùmarè e Oníbodè, ainda pode ser alterado sob certas condições.

Devo dizer que o esforço de Ọladipọ para conciliar a crença na predestinação é bastante atraente. Parece ser muito compatível com as crenças yorùbá na liberdade dos seres humanos e em serem moralmente responsáveis. No entanto, ele precisa esclarecer o que se entende por "destino sendo duplamente selado". Se isso significa algum tipo de aprovação ou ratificação, então eu concordaria que o destino pode ser alterado, assim como qualquer parte de um acordo pode alterar posteriormente alguns aspectos do contrato ou até anulá-lo completamente. Mas parece que o real significado do destino vai além de um acordo ou convênio. Quando dizemos que algo é predestinado, não estamos apenas dizendo que foi acordado ou que está incluso em uma aliança pré-natal. Em vez disso, a principal alegação é que algo não pode ser evitado, não importa o que alguém tente fazer.

Acredito que é na tentativa de sustentar a inevitabilidade do que quer que tenha sido predestinado que a ideia de destino sendo "duplamente selada" por Olódùmarè e Oníbodè é introduzida. Esse selo, na minha opinião, não é apenas um tipo de aprovação ou ratificação, mas um meio de garantir que o destino seja irrevogável, certo e sem possibilidade de mudança.

Como corretamente apontado por E. O. Odùwọlé[23], o fato de que o destino é inalterável é ilustrado em “Os deuses não são os culpados” de Ọlá Rótìmí.[24] Nesse livro, vemos Ọdẹwálé eventualmente matando seu pai e se casando com sua mãe, como foi predestinado, apesar de todos os esforços feitos para impedir a realização desses eventos. De fato, Abímbọ́lá parece estar certo ao afirmar que é simplesmente porque as pessoas acham bastante difícil aceitar um destino ruim que fazem sérias, mas infrutíferas, tentativas de retificá-lo ou alterá-lo.[25] Mesmo consultas com oráculos e a oferta de sacrifícios relevantes não podem trazer nenhuma mudança no destino humano. O melhor que eles podem alcançar, de acordo com Abímbọ́lá, é que "todo homem seria capaz de percorrer o caminho já traçado para ele sem se preocupar com o mato"[26]. Da mesma forma, virtudes como trabalho duro e bom caráter são incapazes de mudar um destino até então ruim. Na melhor das hipóteses, eles parecem ser meros meios pelos quais os destinos são cumpridos. Os yorùbá têm muitos provérbios que descrevem a natureza inalterável do destino. Alguns destes foram mencionados anteriormente. Um provérbio yorùbá afirmando que um bom destino nunca pode ser mudado ou pervertido por agentes do mal é ọmọ ar'aiyé kò le pa kádàrá dá wọn kan le fa ọwọ́ àgó s’ẹ́yìn ni (agentes malévolos nunca podem alterar ou perverter um bom destino, o pior que podem fazer é atrasar seu cumprimento). 

A análise acima do relato de Ọladipọ sugere, ao contrário de sua própria conclusão, que o destino é alterável. Uma implicação disso é que os yorùbá parecem ser irracionais, porque, embora reconheçam que o destino é inalterável, eles ainda seguem em frente, fazendo esforços para mudá-lo. Outra implicação é que a noção de livre arbítrio e crença na responsabilidade moral dos humanos é injustificável e infundada dentro do contexto da cultura yorùbá.

No entanto, antes de aceitarmos essa conclusão, vamos tentar transcender o mito para ver se podemos chegar a uma explicação naturalista mais plausível da ideia yorùbá de Orí e predestinação. Nosso pressuposto, nesse esforço, é que o relato mítico yorùbá da criação humana não deve ser tomado literalmente, mas entendido metaforicamente.


Uma interpretação naturalista dos conceitos yorùbá de Orí

É cediço que os yorùbá creem que cada pessoa é composta de ará, emi e Orí (corpo, espírito e cabeça espiritual). Outros elementos espirituais identificados em alguns relatos do sistema tradicional de pensamento yorùbá são Ọwọ́ e ẹsẹ̀ (mão e perna espirituais). Também é aceito que os yorùbá creem que os indivíduos exercem o livre arbítrio e são moralmente responsáveis por muitas de suas ações.

Normalmente, os yorùbá reconhecem que um indivíduo é livre para fazer ou não fazer certas coisas. Por exemplo, os yorùbá concordam que cada indivíduo é livre para decidir se deve ou não roubar, dizer a verdade ou ser gentil com as pessoas. Mas eles também reconhecem que, em alguns casos, os indivíduos podem não ser livres para fazer ou não fazer algumas coisas. Por exemplo, os yorùbá concordariam que um cego não é livre para ajudar alguém a ler uma carta, assim como um aleijado não é livre para salvar uma criança que se afoga. E é assim porque eles são capazes de distinguir entre as áreas nas quais as pessoas são livres e as áreas nas quais elas não são livres, sabendo que as pessoas são consideradas moralmente responsáveis apenas pelas ações que são livres para realizar ou não realizar.

No entanto, parece que ninguém é livre em sentido absoluto, mesmo nas áreas em que a liberdade pode ser exercida. Isso ocorre porque vários fatores externos sobre os quais as pessoas não têm muito controle e dos quais frequentemente não têm consciência, afetam ou influenciam frequentemente o modo de suas ações e personagens. Estes podem ser classificados em dois tipos: fatores de hereditariedade e fatores ambientais. Os fatores de hereditariedade incluem todas as propensões inatas comuns a uma raça ou família, como certas características físicas, doenças, hábitos e assim por diante. Os fatores ambientais incluem inundações, terremotos, secas e várias mudanças climáticas. Os chamados fatores socioambientais são os acontecimentos na sociedade que podem influenciar os indivíduos, seja no nível de ações específicas, seja no nível de disposições e caracteres. A guerra, por exemplo, geralmente predispõe as pessoas à violência de uma maneira que elas podem não estar predispostas quando a sociedade está em paz. Da mesma forma, condições econômicas adversas podem levar algumas pessoas a vícios como prostituição, roubo e assalto à mão armada.

O fato de que atos humanos, características e disposições não são produtos de escolhas absolutamente livres sugere que a prática de elogiar e culpar as pessoas é realmente sem sentido e injustificável. Isso ocorre porque o sistema de moralidade pressupõe que as pessoas façam escolhas livres. Para salvar a moralidade, no contexto yorùbá, da acusação de falta de sentido, precisamos identificar, com precisão, como as pessoas podem ser consideradas genuinamente livres de uma maneira que seja consistente com o conceito yorùbá de Orí. Uma opção é dizer que um indivíduo só é livre quando não é obrigado a fazer ou é impedido de fazer certas coisas. Ou seja, quando ele está livre de restrições externas. Moritz Schlick é um defensor dessa visão e afirma que "atos livres são atos sem compelimentos".[27] Portanto, ele vê todos os problemas de livre arbítrio e responsabilidade moral como pseudoproblemas.

No entanto, um sentido mais plausível em que os indivíduos podem ser considerados livres, consistente com o conceito yorùbá de Orí, é que cada pessoa tem o poder de introduzir uma nova energia ou fazer um esforço de vontade para transcender fatores ambientais ou hereditários que podem querer restringir, obrigar ou predispor essa pessoa a fazer ou não certas coisas. Por exemplo, ainda encontramos algumas pessoas abraçando e praticando os ideais do pacifismo em situações de guerra, apesar da tendência geral à violência. Da mesma forma, apesar de a pobreza predispor as pessoas a vícios como roubo e prostituição, ainda está aberta às pessoas pobres a opção de roubar ou tornarem-se prostitutas.

Embora o termo vontade seja ambíguo e bastante problemático, para o nosso objetivo atual, ela significa os poderes mentais manifestados ao escolher entre duas ou mais alternativas. Um exemplo pode ser útil para esclarecer isso: suponhamos que Joseph, um indivíduo, esteja ciente de duas coisas: primeiro, a forte convicção de que é sempre moralmente correto dizer a verdade; segundo, é o desejo igualmente forte de continuar vivendo na casa em que viveu a vida toda. Suponhamos, ainda, que esse segundo desejo seja incompatível com sua profunda convicção de que ele sempre deve dizer a verdade, porque a única maneira de continuar vivendo nesta casa é prestar juramento. C. A. Campbell descreve uma situação como a "situação de tentação moral".[28] No exemplo acima, mesmo que o desejo de José de morar na casa em questão seja mais forte do que o desejo de dizer a verdade, resta a escolha de ele exercer ou não algum esforço de vontade que lhe permita dizer a verdade. Se ele decidir contar a verdade, sua ação pode ser corretamente descrita como livre, porque ele poderia ter mentido. Da mesma forma, sua decisão de mentir seria livre, porque ele poderia ter dito a verdade.

Em essência, fatores ambientais e de hereditariedade podem determinar a natureza da situação na qual as decisões são tomadas[29], mas os indivíduos ainda podem exercer seu livre arbítrio ao permitir ou não permitir que fatores de hereditariedade ou ambientais ditem suas decisões e ações. No caso de Joseph, citado, o desejo de continuar morando na casa e o desejo de dizer a verdade constituem pelo menos alguns aspectos da situação moral em que Joseph se encontra. Mas a decisão real de mentir ou dizer a verdade em busca de um dos dois desejos incompatíveis é uma função de seu livre arbítrio.

Na minha opinião, é como um indivíduo exerce seu livre arbítrio, que se manifesta em suas várias escolhas e ações livres, que determina sua personalidade, ou seja, o caráter (Ìwà) de cada pessoa é formado em virtude de seus atos passados ​​de livre escolha e é em reconhecimento disso que os yorùbá elogiam e culpam as pessoas por seus bons e maus caráteres. Por exemplo, um ladrão habitual pode ser responsabilizado por seus vícios de roubar, porque faz parte de seu caráter, em razão de seus atos passados ​​de roubador. Portanto, os yorùbá têm a forte convicção de que Ọwọ́ ẹni la fí ń tún ìwà ẹni ṣe (usamos nossas mãos ou fazemos esforços individuais para melhorar nossas características).

Dado o entendimento acima de como os indivíduos poderiam ser considerados livres, apresentarei agora um entendimento naturalista alternativo dos conceitos yorùbá de Orí e destino. Para começar, deixe-me abordar rapidamente a crença yorùbá na determinação pré-natal do Orí e do destino. Sou da opinião de que os fatores hereditários e ambientais, que influenciam as situações em que as pessoas se encontram, existem antes e independentemente do nascimento dos indivíduos que afetam, contribuem para a visão yorùbá de que determinados aspectos da vida humana são determinados no céu, antes do nascimento. Mas parece não haver boas razões para apoiar a tese pré-natal yorùbá. Em vez de sustentar que existe uma escolha pré-natal do Orí que determina o destino, a personalidade e o curso da vida inteira, argumento que a ideia de um Orí escolhido não passa de uma combinação de todos os vários atos de livre escolha feitos por um indivíduo até qualquer momento específico em sua vida.

Três fatores-chave parecem ser vitais na determinação do curso de vida de uma pessoa: fatores hereditários, fatores ambientais e caráter. A relação entre os dois primeiros fatores e o terceiro é tal que, na formação do caráter, cada pessoa tem a opção de permitir ou não que os fatores de hereditariedade e ambientais ditem a decisão e as ações particulares que formarão o caráter.

Por caráter, entendemos a qualidade distintiva de uma pessoa ou os modos peculiares pelos quais cada pessoa manifesta sua existência.[30] É formado em virtude dos vários atos anteriores, de escolhas feitas pelo indivíduo e é o que, em grande parte, determina o destino das pessoas. Tomemos como exemplo um fumante habitual que desenvolve câncer de pulmão como resultado do vício de fumar. Esse vício constitui parte do caráter do fumante, em virtude do qual faz sentido argumentar que ele ou ela estará predestinado a desenvolver câncer de pulmão. Portanto, pode-se dizer do fumante habitual em questão que é seu Orí desenvolver câncer de pulmão. Passando por isso, a afirmação de Moses Oke de que "o caráter de um homem é o seu destino" é bastante plausível.[31]

Pelas considerações feitas, o que os yorùbá descrevem como uma escolha do Orí é realmente feita por indivíduos durante o curso da existência humana, por meio dos diversos atos de escolhas, não por qualquer escolha pré-natal no céu. Isso implica que o conceito de Orí é significativo apenas em um sentido retrospectivo. É apenas com o benefício da retrospectiva que podemos plausivelmente dizer que um indivíduo está predestinado a ser uma coisa ou outra, ou que um evento está predestinado a ocorrer. Antes de um evento ocorrer, não acho que os yorùbá diriam que está predestinado a ocorrer, exceto se, por alguns poderes especiais, eles tiverem algumas ideias para o futuro. Antes da ocorrência dos eventos, o melhor que se pode dizer é que, dada a maneira como uma pessoa vive, se comporta ou manifesta seu caráter, é provável que ela acabe dessa ou daquela maneira. É somente quando tais previsões acontecem que os yorùbá diriam, com alguma medida de autenticidade, que os eventos foram predestinados.

É interessante notar que várias religiões e culturas do mundo concordam com a visão de que alguns indivíduos são capazes de prever com precisão eventos futuros. A religião tradicional yorùbá não é diferente, pois seus praticantes geralmente consultam o oráculo de Ifá para conhecer o futuro de seus filhos. Isso, na língua yorùbá, é descrito como conhecer o ikọ́sẹ̀ w’aiyé ou o ẹsẹ̀nt’aiyé (colocar os pés no mundo) de uma criança.[32] Tudo o que o oráculo faz é prever o tipo de vida que a criança terá, bem como os principais eventos que ocorrerão em sua vida. Os esforços subsequentes para evitar a ocorrência de alguns eventos desagradáveis ​​revelados, pelo que sabemos, acabariam como esforços infrutíferos e inúteis. Tais esforços podem ser comparados aos esforços para cuidar de um indivíduo doente com uma doença incurável. Assim como os parentes não gostariam de deixar um paciente incurável sem fazer nada para aliviar sua dor e talvez com expectativa de que a doença desapareça milagrosamente, os yorùbá também fazem esforços infrutíferos para alterar um destino predito.[33]

Voltando ao nosso discurso sobre a relação entre destino e caráter, minha posição é que o caráter de uma pessoa, produto de atos passados de livre escolha, é que determina o seu próprio destino na Terra. Existem várias sugestões dessa visão nos escritos de Ìdòwú.[34] Segundo ele, Ọ̀rúnmìlà disse: 
Ìwà nìkàn ló sọ̀ro o.
Ìwà nìkàn ló ṣòro.
Orí kan kìí 'burú l'ótu Ifẹ̀.
Ìwà nìkàn ló ṣòro
Caráter é tudo que é necessário
Caráter é tudo que é essencial
Não há nenhum mau Orí na cidade de Ifẹ̀
Caráter é tudo que é necessário
Em essência, a ideia que se está veiculando é que o bem-estar humano e o sucesso na Terra dependem do caráter de uma pessoa. Da mesma forma, Ìdòwú afirma que "um bom caráter é uma armadura suficiente contra qualquer acontecimento indesejável da vida".[35] Assim sendo, o reconhecimento do fato de que cada pessoa é livre para desenvolver um bom ou mau caráter subjaz à prática dos yorùbá de culpar ou elogiar os indivíduos pela qualidade ou tipo de caráter que possuem e também pelo modo como suas vidas se desenrolam. Há um ditado yorùbá que diz Obìnrin sọ̀wànù pátá, ó lóun ò mórí ọkọ wáyé rárá (uma mulher é desprovida de um bom caráter, porém ela reclama de não estar predestinada a ter um bom marido).

Não obstante, a visão de que o destino é determinado pelo caráter parece ser prejudicada pelo fato de que há ocasiões em que ocorrem acontecimentos significativos na vida das pessoas, que não podem ser explicadas em termos do caráter dos indivíduos envolvidos ou de suas escolhas feitas livremente no passado. Por exemplo, quando uma pessoa que nunca fumou antes ou se envolveu com qualquer coisa que sabemos que pode causar câncer de pulmão de repente desenvolve a doença, os yorùbá podem querer dizer que é o destino dessa pessoa ter câncer, sem que possamos dizer que o câncer é um produto de escolhas e hábitos do passado ou do caráter. Em tais situações, somos incapazes de oferecer qualquer explicação plausível para a doença, exceto dizer que é o destino da pessoa em questão ter essa experiência naquele momento. Esse é o tipo de explicação oferecida quando eventos estranhos e, talvez, trágicos, que desafiam explicações racionais, ocorrem.

Em tais circunstâncias, os yorùbá fazem uso de explicações em termos de destino apenas porque não têm outras explicações racionais para o evento. Isso é semelhante à forma como outras pessoas podem explicar eventos distantes em termos de noções como "vontade de Deus", "acaso" ou "sorte". Ainda assim, é preciso notar que não é em todos os casos em que os yorùbá precisam explicar os eventos que afetam as pessoas ou que eles dão explicações em termos de predestinação. Em muitos casos, eles são capazes de dar explicações naturais plausíveis sobre os motivos que certos eventos ocorrem ou por que uma pessoa teve sucesso ou fracasso na vida.

Por exemplo, os yorùbá geralmente incentivam os jovens a serem diligentes e honestos, a fim de obter sucesso em suas vidas. Assim, não é incomum os yorùbá atribuírem o sucesso de uma pessoa a fatores como trabalho duro, resiliência e paciência, sem qualquer referência ao destino. Da mesma forma, o fracasso é frequentemente explicado em termos de fatores como preguiça, precipitação, tolice e impaciência. Somente quando os yorùbá são incapazes de identificar razões empíricas por trás do sucesso ou fracasso de um indivíduo que recorrem a explicações em termos de destino.

Por exemplo, é só quando um indivíduo, depois de fazer tudo o que é necessário para prosperar em um empreendimento, fracassa é que os yorùbá podem dizer que ele está predestinado a falhar no empreendimento. Mas, neste contexto, a maneira como a noção de destino é empregada é bastante semelhante à maneira como algumas pessoas podem simplesmente dizer que a pessoa é apenas azarada, porque elas não podem oferecer nenhuma explicação plausível para a má sorte.

De fato, o termo yorùbá para sorte é o mesmo que o termo usado para designar destino. Quando os yorùbá querem dizer que uma pessoa tem sorte ou azar, dizem que o ṣe oríre ou o ṣe orí burúkú (ele tem uma cabeça boa ou uma cabeça ruim). Talvez seja porque é feita referência à cabeça quando os yorùbá estão falando sobre o destino, que algumas das dificuldades que cercam a noção yorùbá de Orí e destino são acentuadas.

O que se está sugerido, em essência, é que há pelo menos dois sentidos nos quais os yorùbá empregam a noção de Orí: primeiro, para significar a escolha do caráter feito por cada indivíduo através das escolhas particulares das ações realizadas. Segundo, denotar a falta de explicações plausíveis em uma situação desconcertante que desafia qualquer explicação naturalista ou empírica razoável. Em tais situações, há a tendência de dizer que o que aconteceu não pôde deixar de ocorrer porque foi predeterminado no céu. Mas, como tentamos mostrar, essas explicações não podem ser defendidas racionalmente e são produtos de várias consequências incompatíveis.


Original em: Ékanọ́lá, Adébọ́lá Babatúndé. A naturalistic interpretation of the yorùbá concepts of Orí. Philosophia Africana: Analysis of Philosophy and Issues in Africa and the Black Diaspora, vol. 9, nº 1, março 2006, p. 41-52.
Tradução realizada em setembro de 2019.



[1] Prof. do Departamento de Filosofia da Universidade de Ìbàdàn, Nigéria.
[2] Mário Alves da Silva Filho é Sacerdote afro-religioso. Dirigente do Templo Espiritual Caboclo Pantera Negra e do Ilé Ifá Ajàgùnmàlè Olóòtọ́ Aiyé. Bacharel, Mestre e Doutor em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública pelo Centro de Altos Estudos de Segurança; Especialista em Políticas Públicas de Gestão em Segurança Pública, Especialista e Mestre em Ciência da Religião (PUC/SP), Especialista em História da África e do Negro no Brasil pela UCAM/RJ. Professor do Programa de Pós-Graduação (Mestrado e Doutorado) do Centro de Altos Estudo em Segurança. Endereço eletrônico: ezezide@gmail.com
[3] Wándé Abímbọ́lá, Ifa: An Exposition of Ifa Literary Corpus (Ibadan, Nigeria: Oxford University Press, 1976), 96-115
[4] Olusegun Gbadegesin, "Destiny, Personality and Ultimate Reality of Human Existence: A yorùbá Perspective," in Ultimate Reality and Meaning, vol. 7, no. 3 (1984): 173-188; E. B. Ìdòwú, Olódùmarè: God in yorùbá Belief (London: Longman Ltd., 1962), 169-186.
[5] Wándé Abímbọ́lá, Ifa, cited; Olufemi Morakinyo, "The yorùbá Àyànmọ́ Myth and Mental Health Care in West Africa," in Journal of Culture and Ideas, vol. 1, no. 1 (1983): 87.
[6] E. B. Ìdòwú, Olódùmarè, 174
[7] E. B. Ìdòwú, Olódùmarè, 174-175
[8] Wándé Abímbọ́lá, Ifa.
[9] M. Akin Mákindé, "An African Concept of Human Personality: The yorùbá Example," in Ultimate Reality and Meaning, vol. 7, no. 3 (1984): 197-198; Olusegun Gbadegesin, Destiny, Personality and Ultimate Reality; E. B. Ìdòwú, Olódùmarè.
[10] E. B. Ìdòwú, 171
[11] E. O. Odùwọlé, "The Concepts of Orí and Human Destiny," in Journal of Philosophy and Development, vol. 1, nos. 1 and 2 (1996): 48.
[12] A. S. Hornby, Oxford Advanced Learners Dictionary (Oxford: University Press, 1974).
[13] M. Akin Mákindé, "A Philosophical Analysis of the yorùbá Concept of Orí and Human Personality," in International Studies of Philosophy, vol. XVII, no. 1 (1985): 57.
[14] M. Akin Mákindé, An African Concept, 198
[15] M. Akin Mákindé, An African Concept, 198
[16] M. Akin Mákindé, A Philosophical Analysis, 58.
[17] M. Akin Mákindé, A Philosophical Analysis, 63-66
[18] Olúṣẹ́gun Ọladipọ, "Predestination in yorùbá Thought: A Philosopher's Interpretation," Oríta, vol. XXIV, no. 1-2 (June and Dec. 1992): 36-50
[19] Olúṣẹ́gun Ọladipọ, Predestination, 37.
[20] Olúṣẹ́gun Ọladipọ, Predestination, 41.
[21] Olúṣẹ́gun Ọladipọ, Predestination, 41.
[22] Olúṣẹ́gun Ọladipọ, Predestination, 2-43.
[23] E. O. Odùwọlé, The Concepts of Orí, 48.
[24] Ọlá Rótìmí, The Gods Are Not to Blame (Oxford: Oxford University Press, 1975).
[25] Wándé Abímbọ́lá, Ifa, 63.
[26] Wándé Abímbọ́lá, Ifa, 63.
[27] Moritz Schlick, "Freedom and Responsibility," in P. R. Struhl and K. J. Struhl, Philosophy Now (New York: Random House, 1972), 150.
[28] C. A. Campbell, "In Defense of Free Will," in P. R. Struhl and K. J. Struhl, Philosophy Now, 140.
[29] C. A. Campbell, "In Defense of Free Will," in P. R. Struhl and K. J. Struhl, Philosophy Now, 141-2.
[30] A. S. Hornby, Oxford Advanced Learners Dictionary, 139.
[31] Moses Oke, "Awolowo Metaphysics," in O. Olasope et al., eds., Obafemi Awolowo: End of an Era (Ile-Ife: Obafemi Awolowo University Press Ltd., 1988), 267.
[32] E. O. Ìdòwú, Olódùmarè, 181.
[33] Wándé Abímbọ́lá, Ifa, 63.
[34] E. O. Ìdòwú, Olódùmarè, 155.
[35] E. O. Ìdòwú, Olódùmarè, 155.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Cabula e Macumba

CABULA E MACUMBA[1]

Valdeli Carvalho da Costa


Introdução do editor do Site: Resolveu-se trazer esse artigo do Prof. Dr. Valdeli Carvalho da Costa, originalmente publicado na Revista Síntese (da Faculdade Jesuítica de Belo Horizonte, no terceiro quadrimestre de 1987), para que os estudiosos das religiões afro-brasileiras tivessem um interessante material de estudo, no qual se pode ver as semelhanças que existem entre a Cabula, Macumba, Umbanda e Quimbanda. O autor foi professor do departamento de teologia da PUC-RJ e defendeu sua tese de doutorado em Roma, em 1981, intitulada "Umbanda - Os Seres Superiores e os Orixás/Santos". Por se tratar de uma revista editada em 1987 ela não está disponível para acesso em seu sítio de Internet.





RESUMO

O artigo trata do culto de origem banto-angolana denominado Cabula que floresceu em fins do século passado na área do Estado do Espírito Santo (Brasil) e foi descrito pela primeira vez pelo Bispo de Vitória Dom João Batista Corrêa Nery. Fundando-se em Nery e em outras fontes até agora não exploradas, o autor analisa minuciosamente o culto e o ritual da Cabula e descreve as suas particularidades.

A Conclusão ressalta a importância que o estudo da Cabula apresenta para a identificação das fontes da expressão religiosa banto no Brasil e para a compreensão da atual Macumba.


INTRODUÇÃO

No fim do século passado, tem-se notícia da organização de um culto de origem banto-angolana na área do Estado do Espírito Santo, conhecido com o nome de Cabula e descrito sumariamente pela primeira vez pelo então bispo local, D. João Batista Corrêa Nery na Carta Pastoral despedindo-se dos párocos da Diocese do Espírito Santo. 

O relato de D. Nery deixa ver inúmeras identidades entre a Cabula e a Macumba carioca, esta, na época, ainda não estruturada como culto, nem designada com tal nome. A descrição da Cabula por D. Nery chamou-nos a atenção, como já o fizera a Arthur Ramos (1951, p. 103-107) e Roger Bastide (1968, p. 286) para as inúmeras semelhanças entre o culto da Cabula e os ritos da Macumba do Rio. Ramos e Bastide acenam a algumas dessas semelhanças. Nossas pesquisas permitiram descobrir um elenco maior de pontos em comum não elaborados nem por A. Ramos nem por R. Bastide. Face a esta constatação, pareceu-nos útil, para o aprofundamento dos estudos afro-brasileiros, desenvolver os dados por nós encontrados, que patenteiam, com grande riqueza de matizes, o liame entre a Cabula e a Macumba, como inflorescência tardia do aparentemente morto rizoma[1] cabulístico. Analisemos os dados de D. Nery, confrontando-os com os nossos.

D. NERY E A CABULA

Em suas visitas pastorais, D. Nery descobriu em sua Diocese, ao norte do Estado do Espírito Santo, nas cercanias da cidade de S. Mateus, "três freguesias largamente minadas por uma seita misteriosa" (Nery, 1963, p. 5) que lhe parecia de origem africana. A descoberta motivou-o a tentar desvendar o mistério com que era celebrado o culto. Com efeito, convocou todas as pessoas que lhe pudessem fornecer informações. Obteve-as de todas as classes sociais, com minúcias sobre as cerimônias. Durante os quinze dias em que permaneceu na região, ocupou-se principalmente do assunto (Nery, 1963, p. 16).

Muitas das informações vieram-lhe diretamente, até de ex-cabulistas, não obstante o risco de vida a que se expunham ao dá-las, já que a Cabula obrigava seus adeptos a manterem "segredo absoluto" a respeito do culto, sob pena de morte por envenenamento (Nery, 1963, p. 5). Isto explica o tom misterioso e tímido, com que muitas informações foram dadas, como informam pessoas a par dos relatos. Através desses informantes soube que antes da Abolição da escravatura o culto era praticado apenas por negros e mui reservadamente. Após a Lei Áurea, a seita se generalizou, tendo chegado a mais de oito mil adeptos entre Brancos e Negros. Na época em que pesquisava e escreveu sobre o assunto (1901) o culto ainda tinha grande número de iniciados e adeptos, que o praticavam nas três freguesias, nas matas vizinhas à cidade (Nery, 1963, p. 16).


O CULTO

Segundo Olga G. Cacciatore (1975), a palavra Cabula seria uma deformação da palavra "cabala", chegada até os Negros bantos, através dos malês, de cultura muçulmana. Um culto afro-brasileiro de características sincréticas, com traços de cultura cabinda, angola e muçulmi, por influência malê, identificável pelo gorro usado pelos participantes do ritual.


TRAÇOS CARACTERIZANTES

Nestes, há divergências entre o relato de D. Nery, que tomamos por base desta análise, e as informações recentes de Olga Cacciatore (1975). Luiz da Câmara Cascudo não se refere à Cabula em seu Dicionário do Folclore Brasileiro (1980), tornando-se difícil saber se Cacciatore dispôs de fontes outras a nós ainda inacessíveis. Nesta aporia, apresentaremos as informações segundo as fontes, sem podermos ajuizar da precedência de uma sobre a outra.

Cafioto era o termo geral usado para designar os adeptos da Cabula. Este termo já é a primeira identidade entre a Cabula e a Macumba carioca. Magalhães Corrêa em "O Sertão Carioca" (p. 217-221), informa que esse era também o termo usado para designar os primeiros adeptos da Macumba (Bastide, 1960, p. 286-287). Os camaradas eram chamados de cambas (kambas), palavra de origem kimbundo, significando "canriarada". Se homens, chamavam-se mucambos, se mulheres, macambas. Os iniciados eram os camanás, distinto dos caialos, os estranhos, os profanos (Nery, 1963, p. 9]. O termo camaná também era usado para designar irmão de culto. O local das reuniões chamava-se camucite.

Liturgicamente usavam camisa e calça brancas e pés descalços. Aqui temos outra semelhança entre a Cabula e a Macumba. O traje ritual masculino da Macumba é o mesmo da Cabula: calça e jaleco branco e pés descalços. Hoje, nos terreiros de Umbanda de influxo kardecista já se admite sapato tênis branco. Olga Cacciatore informa que na Cabula usavam um gorro (camolelê) na cabeça, à muçulmana, e "largos cinturões com amuletos". No ritual entravam espelhos, pedras, cachimbos, infusões de raízes, etc., além de sinais cabalísticos riscados, tais o signo de Salomão, cruzes, junto com velas acesas. Nisto também há inúmeras correspondências com os ritos da Macumba, na qual são usados cachimbos com fumo apresentados às “Entidades” que “baixam” durante o transe dos filhos-de santo. Estas “Entidades” “incorporadas” após saudarem o altar, o gongá ou congá, o chefe do terreiro, o “pai” ou “mãe-de-santo” e os tambores, os atabaques ao retornarem ao local que lhes está destinado no grupo do iniciados, devem fazer, hoje, sobre a táboa-de-pontos, e no passado, no chão, o ponto-riscado próprio da “entidade” “incorporada”, uma como assinatura de autoconfirmação de sua presença. Esta prática da Macumba coincide com os sinais cabalísticos citados por Olga. Os pontos-riscados na atual Macumba são formados pela composição e, às vezes superposição, de "estrelas de Vai" nos terreiros chamados de "signo de Salomão" — dois triângulos superpostos invertidamente — cruzes, meias luas, estrelas de cinco pontas, flechas, raios, etc, identicamente ao que se fazia na Cabula.

"Mesa" era o nome dado à reunião dos cabulistas. Os cultos, "trabalhos" ou "mesas" realizavam-se nas matas. Aqui, outra identidade com a Macumba. O mesmo nome "trabalho" é usual na Macumba, para designar os rituais mais secretos, semelhantemente à Cabula, realizados também "nas matas". O chefe de cada mesa chamava-se embanda, que é o nome do sacerdote nas religiões bantos. Os chefes dos terreiros de Macumba, em torno de 1934, quando Arthur Ramos descreve o terreiro do velho Honorato, chamavam-se também embandas, Umbandas ou pais-de-terreiro (1940, p. 121). Merece ressaltar que o termo Umbanda será futuramente a designação de um dos ramos da Macumba, após o seu desdobramento, por influência do Espiritismo Kardecista. Na Cabula, como futuramente na Macumba, o embanda era o chefe e doutrinador da comunidade.

Em cada mesa o embanda era auxiliado por um cambone. A palavra cambone/o/a, provavelmente, procede do kimbundo ",kambundu" com o significado de negrinho, que em muitos Candomblés de estrutura congo-angolana e nos Candomblés de Caboclo designam o tocador de atabaques . Também este termo, cambono, com a mesma função de "auxiliar" do pai-de-santo, encontra-se nos terreiros de Macumba, continuadas nos de Umbanda e Quimbanda (V. C. Costa, 1983, p. 579). É o nome dado ao filho/a-de-santo, escolhido/a pelo Pai ou Mãe-de-santo para acolitar uma “entidade” que tenha “baixado” em uma gira. Ao cambono compete acender o charuto, o cachimbo, o cigarro ou a cigarriíha e entregá-los acesos à “entidade” correspondente: Preto-velho, Cabocio, Exu ou Pombagira “incorporados”. Servem-lhes as bebidas prescritas no ritual, a saber: vinho tinto ou moscatel para os Pretos-veihos, cachaça, para os Exus e, recentemente, aniz, para as Pombagiras. Devem acender as velas, anotar as receitas prescritas pelas “entidades” para os consulentes, assim como, traduzir para estes, o jargão usado por essas “entidades”.

Na Cabula a reunião dos camanás formava a engira. Esta palavra igualmente, com a sílaba "en" sincopada, se perpetua na Macumba. "Gira" é um dos termos usados para designar uma cerimônia cultual da Macumba. É possível que na Macumba e Umbanda hodierna a expressão proceda da "engira" cabulística, assim como aproximada do verbo português "girar", andar à roda, mover-se circularmente, rodopiar, porque as duas modalidades comportamentais verificavam-se no antigo ritual da Macumba. O ritual se desenvolvia com os adeptos dançando e "girando" num grande círculo, uns após os outros, em fila indiana, como ainda hoje se vê em alguns candomblés e sessões de Umbanda, realizadas nas matas, como presenciamos várias vezes. A segunda acepção da palavra "girar": — rodopiar — girar sobre si próprio, também se ajusta, porque assim se comportam os adeptos, quando entram em estado de transe. Rodopiam cambaleando, seguindo a fenomenologia precursora do transe, assim como o fazem, quando já “possuídos” pelas “entidades”, o "Tatá".

Na Cabula, os “espíritos” que se acreditava incorporarem nos iniciados, eram chamados de tatá, palavra que em dialeto kimbundo significa "pai". Era um “espírito familiar” bom, que supunham se apossar de um iniciado e assim, mais de perto, o dirigir em suas necessidades temporais e espirituais. É a continuação do culto banto aos ancestrais tribais através do transe em 'estado de possessão'.

A palavra "tatá", agora com acentuação paroxítona "Táta", também permanece na Macumba e se perpetua na Umbanda mais fiel às tradições angolanas. O termo significa não mais os espíritos dos ancestrais, que se supunha “incorporar” nos iniciados da Cabula, mas passou a designar na Macumba, Umbanda e Quimbanda de tradições angolanas "o grande sacerdote", o grande chefe de terreiro ou de terreiros, pessoa de grandes conhecimentos do ritual e do culto. 

Entre 1971 e 1972, tive ocasião de entrevistar no Rio de Janeiro, Tancredo da Silva Pinto, falecido algum tempo depois, considerado no meio umbandístico o grande "Táta" de Inquice, do ritual Omolocô. A designação "tatá" para os espíritos de ancestrais protetores sofreu, assim, uma modificação acomodada ao processo histórico de perda progressiva da memória ancestral, em consequência da vinda dos Bantos como escravos para o Brasil. Nos três séculos de vida escrava, a memória coletiva banto esfumaçou a individualidade dos ancestrais tribais remotos. Foram esquecidos e substituídos pelo culto dos antepassados mais recentes, falecidos no Brasil, durante o período de escravidão. Mas, mesmo estes, na vida urbana dos ex-escravos, logo perderam a própria individualidade, tornando-se apenas arquétipos estereotipados, hoje designados e cultuados com o nome vago Pretos-velhos, com uma pseudo-individuação: Pai Francisco de Aruanda, Pai Joaquim do Congo, Maria Conga, Mãe Benedita etc. Isto, nos terreiros de Macumba, como nas atuais Quimbanda e Umbanda. Constituem uma das várias linhas das almas cultuadas.

A palavra "Táta" assumiu também outra variante de sentido, como título de orixás, forças da natureza, advindos do Candomblé para a Macumba. Assim, o orixá fálico e mensageiro dos demais orixás no Candomblé, Exu, por vezes é chamado de Tata Veludo; Oxóssi, o orixá dos caçadores é o Tata das Matas; Xangô, na África, o orixá dos meteoritos, do raio e do trovão e, atualmente, no Rio de Janeiro, orixá da justiça e das pedreiras, é o Tata da Pedreira (V. C. Costa, 1983, 249-266).


O RITUAL

Na descrição de D. Nery, o ritual secreto por vezes era realizado em determinadas casas. Porém mais comumente, "nas florestas", a altas horas da noite (Nery, 1963, p. 6). Esta informação se harmoniza também com o ritual da Macumba e da Umbanda angolana. Algumas festas rituais, como a de Oxossi, sincretizado com S. Sebastião ou de Ogum, com S. Jorge, no Rio de Janeiro frequentemente, têm a primeira parte do ritual realizado nos terreiros, do início da noite à madrugada, continuando após, na madrugadinha da mesma noite, ou em outro dia, nas matas, onde concluem o ritual, com oferendas às entidades, incluindo a matança de animais, como presenciamos nas matas da Gávea, na cidade do Rio de Janeiro, pela Tenda Espírita S. Bernardo e Pena Branca, em 1972, para comemorar Ogum/S. Jorge. 

Essa prática de ter rituais em "casas" - hoje, nos terreiros - e na "mata" é outro traço da Cabula que se perpetuou na Macumba.

Na Cabula, “à hora aprazada, todos de camisa e calças brancas, descalços, uns a pé, outros a cavalo, com o embanda à retaguarda, dirigiam-se silenciosos ao templo, o camucite”. Um camaná ou um cambone ia à frente, conduzindo a mesa, isto é, a toalha, a vela e pequenas imagens. Em determinado ponto do caminho tomavam uma vereda, só conhecida dos iniciados, para chegar ao camucite, o sítio sob uma frondosa árvore, no meio da mata.


PRELIMINARES

Uma vez chegados, limpavam no local uma área circular de uns cinquenta metros de diâmetro. Faziam uma fogueira e instalavam a mesa do lado do oriente, rodeando as pequenas imagens de velas, chamadas esteireiras simetricamente dispostas. As esteireiras eram acesas ritualisticamente: a primeira, a leste, em homenagem ao mar, Carunga, a segunda, a oeste; a terceira ao norte; a quarta, ao sul; as restantes, em torno do camucite. Carunga, homenageado com a primeira vela é a corruptela de kalunga, o mar ou oceano em língua kimbundo. O termo ainda é usual nos terreiros de Macumba, Umbanda e Quimbanda, com o mesmo significado, acrescido, porém do qualificativo "grande" — a carunga grande — para diferenciá-lo do cemitério: a carunga-pequena.

Segundo D. Nery, havia "duas mesas capitulares: a de Santa Bárbara e a de Santa Maria, subdividindo-se em muitas outras, com as mesmas denominações" (Nery, 1963, p. 6). Além destas, informa ter recebido esclarecimentos, não confirmados, da existência de uma terceira mesa, a de Cosme e Damião, "mais misteriosa e mais central e que exercia uma espécie de fiscalização suprema sobre as duas outras e cujos iniciados usavam, nas reuniões, compridas túnicas pretas, que cobriam o corpo todo, desde a cabeça até os pés, à semelhança do saco dos antigos penitentes" (Nery, 1963, p. 6). A respeito dessas "mesas diretoras" da Cabula e sua continuação na Macumba, Jacy Rego Barros (1939, p. 70), numa série de palestras dadas, informava que "As mesas diretoras do cerimonial, que se encontram nas sessões cabulistas, e que se acham presentemente em todas as Macumbas, mostram-nos uma direção litúrgica bem paralela á do ritual maçônico".

A Cabula, cuja finalidade cultual é a mesma da Macumba e do Catimbó, deles difere profundamente nas realizações, com o seu Umbanda[2] à frente, dirigindo cerimônias muito sacerdotalmente, no camucite, pois esse é o ambiente. (BARROS, 1939, 69-70)


INÍCIO DO RITUAL

O embanda descalço, com um cinto de rendas alvas e delicadas, se não estivesse com o Camolelê (uma espécie de gorro) à cabeça, amarrava-a com um lenço (Nery, 1963, p. 6-7,9). Seguindo o exemplo do embanda, faziam o mesmo os camanás. Em alguns terreiros de Macumba e até de Umbanda mais fiéis às tradições africanas, ainda presenciei esta prática de ajustar um lenço dobrado em fita, em torno da fronte, amarrando-o atrás à cabeça. A prática está desaparecendo, não obstante a sua utilidade. Amarra-se o lenço à testa para impedir o suor descer sobre os olhos, em consequência da sudação provocada pela agitação decorrente da entrada em estado de transe. Provavelmente esta era também a razão da mesma prática na Cabula, porque também nela, como veremos adiante, os adeptos do culto agitavam-se ao entrarem em estado de transe.

Iniciava-se, a seguir, a oração preparatória, rezada de joelhos diante da mesa. A prática da oração preparatória ainda hoje se repete nos terreiros de Macumba, Umbanda e Quimbanda. Atualmente, é designada como Oração de Abertura dos Trabalhos. Pode ser feita de joelhos, à muçulmana, ou em pé, voltados para o altar (na Cabula, denominado mesa, nos terreiros atuais, gongá ou congá e nos primórdios da Macumba, canzoá, como informa Magalhães Corrêa, p. 217-21).

A Cabula reintensifica o aspecto fitolátrico do culto, e realiza reuniões noturnas e secretas, nas lareiras abertas em redor de árvores sacralizadas, como a gameleira, sessões a que são chamados os componentes do grupo religioso, ou sejam os camanás; sessões que têm ritos aproximados das formas secretas de religiões outras, que afirmam mesmo qualquer influência islamita, apontando um oriente iniciático que êles não sabem onde realmente se encontra. (BARROS, 1939, 69-70)

Após a oração preparatória, o embanda se erguia, elevava os olhos ao céu, concentrava-se e entoava o primeiro cântico, denominado nimbu. Estes cânticos rituais, hoje, nos atuais terreiros de Macumba são denominados pontos-cantados.

Eis o primeiro nimbu:
Dai-me licença, Carunga
Dai-me licença, tatá
Dai-me licença, baculo
Que o embanda qué quendá (Nery, 1063, p. 7).

O nimbu dirige-se ao mar (Carunga), aos espíritos de ancestrais (tatá) e aos baculos ou bacuros, que eram "espíritos da natureza, jamais tendo incarnado. Segundo O. Cacciatore, o termo proviria da expressão iorubá "igbàkúrò" isto é salvador (p. 61). Parece que os baculos tinham representação estatuária, pois D. Nery afirma que o termo designava pequenas imagens. Talvez as que estavam sobre a mesa fossem esses baculos. Além de estátuas, o termo segundo D. Nery, designava também a "raiz", como veremos logo a seguir, cujo suco era utilizado no ritual (Nery, 1962, p. 9). A nosso ver, provavelmente o termo era estendido à raiz – esta talvez um alucinógeno — porque a ingestão do seu suco favorecesse a entrada em estado de transe, ou seja, a suposta possessão pelos baculos. Às três categorias de "seres" nomeados no nimbu pedia-se licença para se iniciar o ritual: o embanda poder "quendá", isto é funcionar (Nery, 1963, p. 9).

O nimbu era acompanhado pelas quatan ou liquaqua, as palmas ritmadas dos camanás. Este procedimento ritual ainda é usual nos atuais terreiros de Macumba, Umbanda e Quimbanda. Todo o ritual é acompanhado de pontos-cantados ritmados por palmas, e, liturgicamente, dançados, pelos filhos-de-santo, com uma ginga de corpo, no local em que se encontram. Como na atual Macumba, também na Cabula, o ritmo das palmas era muito importante. A ausência delas por parte de algum camaná era objeto de observação do embanda ao cambone.

— "Por conta de quem camaná fulano não bate caliquaquá?"

O cambone respondia: - "Por conta de Ca-ussê" (Nery, 1963, p. 7)

O uso do prefixo "ca" precedendo as palavras foi interpretado por D. Nery como uma "gíria" para dificultar a compreensão do que era falado no ritual. Na realidade, como observou R. Bastide (1960, p. 285), o "ka" é um prefixo classificatório banto, conservado na Cabula antes das palavras portuguesas.


A "POSSESSÃO" DO EMBANDA

Pelo relato de D. Nery, após o primeiro nimbu, o embanda entrava em estado de transe, pois informa que nesse momento "o embanda em contorsões, virando e revirando os olhos [fazia] trejeitos, [batia] no peito com as mãos fechadas e, compassadamente, emitindo roncos profundos, [soltava], afinal, um grito estridente, horroroso" (Nery, 1963, p. 7). Essa é a fenomenologia observável em muitos iniciados da Macumba, que se creem possuídos pelos espíritos de homens depravados, segundo a metamorfose realizada nos terreiros de Macumba, por influência do Espiritismo Kardecista, sobre o mítico orixá fálico e mensageiro dos demais orixás, Exu.

Na sequência ritual da Cabula a entidade 'incorporada' no embanda, era objeto, a seguir, de homenagens, como ainda hoje se pratica nos terreiros de Macumba, Umbanda e Quimbanda. O cambono trazia à entidade 'incorporada' um copo de vinho e uma raiz. O embanda mastigava a raiz e bebia o vinho. Este pormenor importante fornece-nos uma pista para presumir qual a entidade 'baixada' no embanda. possivelmente um tatá, o 'espírito' de um ancestral - hoje, denominado de Preto-velho — e não um bacuro. Por que? Pelo tipo de bebida oferecida: "um copo de vinho". O vinho moscatel, ainda hoje, é a bebida oferecida aos Pretos-velhos, quando 'baixam' nos filhos-de-santo dos terreiros de Macumba, Umbanda e Quimbanda. Se fosse Exu, seria cachaça. A fenomenologia do estado de transe, contudo, se aproxima mais do estado de 'possessão' de Exus, que dos Pretos-velhos tradicionais. Como a bebida oferecida foi "vinho" e não cachaça, a entidade 'baixada' no embanda seria um tatá, tendo os traços estereotipados dos atuais Pretos-velhos traçados, segundo a descrição de pais-de-santo, ou seja, 'espíritos' de Exus em transição para o escalão superior de Preto-velho. Seriam Pretos-velhos ainda portadores dos traços estereotipados dos atuais Exus da Macumba, Umbanda e Quimbanda. Este conceito de Preto-velho traçado é recente. Posterior ao influxo do Espiritismo Kardecista sobre a Macumba. Não pode, portanto, ser aplicado aos tatás da Cabula. Mas a descrição de D. Nery deixa ver sua presença já em gestação na Cabula.

Ao "vinho" vinha associada a raiz, atrás acenada. Este, porém, era o momento de sua presença litúrgica, pela mastigação e deglutição de seu suco. A mesma raiz reaparecerá mais adiante no ritual de iniciação dos camanás. Como nos rituais atuais da Macumba, também na Cabula, as oferendas não se restringiam apenas à raiz e ao copo de vinho. Era complementada com "fumo de incenso" queimado nesse momento, em um vaso qualquer, em homenagem à entidade e cuja fumaça era inalada. Também esta prática ritual da Cabula se mantém na Macumba, Umbanda e Quimbanda, só que deslocada. Na Cabula, era homenagem à entidade 'incorporada' no embanda.

Nas atuais Macumba, Umbanda e Quimbanda transformou-se a incensação em rito preliminar de purificação ritual do local e dos participantes, preparatório para a Abertura dos Trabalhos. A incensação “purifica” o ambiente e as pessoas presentes. Libera-as das "cargas negativas", que lhes estão aderentes à pele (pelo fato de andarem nas ruas) e transportadas para os terreiros ao neles entrarem. A incensação serve também para preparar a cabeça dos filhos-de-santo para “receberem” as entidades, procurando — como se fazia na Cabula — aspirar a fumaça do incenso e com ela impregnar a própria cabeça, trazendo a fumaça com as mãos para as têmporas, fronte e occipital, visando “fortalecer” a cabeça e melhor poder “incorporar” as entidades.

O SEGUNDO NIMBU

Após a aspiração do incenso, o embanda entoava o segundo cântico:
Baculo do ar
Me quisa na mesa
Me tomba a girar (Nery, 1963, p. 7)
Depois do nimbu de abertura do ritual, saudando Carunga, tatá e baculo e pedindo licença para funcionar - "quendá" – este segundo nimbu dirige-se exclusivamente ao “baculo do ar", isto é, ou ao baculo que habita a atmosfera, ou à atmosfera com seus fenômenos metereológicos. Os dados que possuímos não especificam a identidade deste "baculo do ar". Contudo, ele é chave no ritual, pois o nimbu lhe atribue o poder de fazer o embanda "quisar” na mesa" e "tombar a girar". Até o momento deste trabalho não conseguimos descobrir o significado do "quisar". A "mesa", como já vimos, corresponde ao gongá ou congá (altar) e à todo o ritual da Cabula. O poder de "tombar a girar" não oferece dificuldade: pede-lhe o embanda que atue de modo a fazê-lo entrar em estado de transe, segundo a fenomenologia ritual de "girar", rodopiar até "tombar", cair no chão, em estado de transe, como ainda hoje sucede nos terreiros de Macumba, Umbanda e Quimbanda com os iniciantes no ritual, que estão aprendendo a “desenvolver a mediunidade”.

Este pedido, na lógica da sequência do ritual descrito por D. Nery, suporia que o embanda ainda não tivesse entrado em estado de transe. Mas, como vimos atrás, o embanda já havia entrado. O nimbu, portanto, deveria ser cantado: ou para obter a possessão, caso ainda não tivesse entrado em transe; ou, se já estivesse “possuído”, para manter a sequência de hinos do ritual.


O RITO DO CANDARU

A seguir, informa D. Nery, "o Embanda, ora dançando ao bater compassado das palmas, ora em êxtase [= estado de transe], recebe o Cambono o Candaru (brasa em que foi queimado o incenso), trinca nos dentes e começa a despedir chispas pela boca, entoando o Nimbu:
Me chame três candaru
Me chame três tatá
Sou embanda novo (ou velho)
Hoje venho curimá. (Nery, 1963, p. 7)
D. Nery define candaru como fogo (1963, p. 9). Com maior precisão, o candaru, referido neste nimbu, é uma palavra de origem provavelmente ioruba e não banto, correspondendo ao ase (coador) + ere (barro) = coador feito de barro, onde eram postas brasas. No ritual, o candaru era usado como prova iniciática ou de comprovação da autenticidade da “possessão” por uma entidade. A prova consistia em colocar sobre a cabeça do iniciado, de cujo transe se duvidava da autenticidade, a vasilha de barro com orifícios no fundo e dentro fogo vivo (aserê) ou brasas (candaru), sobre as quais se derramava azeite.

Se o transe fosse autêntico, a pessoa não deveria se queimar. O rito usado na Cabula o era também em terreiros sudaneses da Bahia e em outros lugares de influência banto. Aqui, no Rio de Janeiro, nas pesquisas de campo em terreiros de Umbanda e Macumba ouvi frequentemente referências a essa prática comprobatória da autenticidade da “possessão” por uma entidade, mas nos quatro anos de intensiva pesquisa de campo não tive ocasião de presenciar a sua prática. Ao que tudo indica, está caindo em desuso, pela pressão de pais-de-santo de formação kardecista, que repugnam todas as práticas virulentas dos antigos rituais africanos.

Aqui, na sequência ritual, o candaru foi entregue ao embanda, que o "trincou com os dentes, soltando chispas de fogo pela boca", como uma demonstração da autenticidade de sua “possessão”, ante à comunidade. O candaru foi usado não da forma usual, sobre a cabeça, mas trincado pela borda com os dentes, de modo a poder, com as brasas próximas da boca, provocar chispas de fogo, dando a impressão de saírem. Visava impressionar os neófitos, pois a seguir se fazia a iniciação.

Ao "curimá[r]" D Nery dá o significado de "brincar" (1963, p. 9). Precisamente, curimar significa cantar curimbas ou corimbas, cânticos religiosos negro-brasileiros, para saudar ou invocar as entidades do culto. Seria uma palavra: ou de origem ioruba, formada de "ko" (cantou) + "orin" (canção) + "ba" (realmente); ou proceder do dialeto kimbundo, formada pelo prefixo verbal "ku" + "imba" (cantar) (Cacciatore, p. 95).


INICIAÇÃO DOS NEÓFITOS

Após esse nimbu principiava a iniciação dos novos camanás. Caso houvesse algum neófito, um caialo, com o seu padrinho, durante essa fase inicial do ritual, devia ter ficado afastado do camucite.

Neste momento, o caialo, vestido humildemente com calça e camisa brancas sem goma e descalço, após penetrar no círculo, devia passar três vezes por baixo das pernas do embanda. Era a tríplice viagem, simbolizando a fé, a humildade e a total obediência ao seu novo pai, como dali em diante chamará o embanda (Nery, 1962, p. 9). É de se observar que aqui temos o mesmo tratamento que os adeptos da Macumba dão ao chefe religioso da comunidade: "pai", tanto como abreviação do termo pai-de-santo, tradução portuguesa de Babalorixá ["babá (pai) + "orixá"(santo)], quanto no sentido de paternidade espiritual do chefe.

Durante a iniciação do caialo, os camanás entoavam hinos de ação de graças às suas “entidades”, pela aquisição do novo irmão de culto. Com o caialo de pé diante de si, o embanda recebia de um dos cambonos a emba. Segundo D. Nery, um pó sagrado feito de tabatinga, espécie de argila branca, seca (1963, p. 10). Bastide, entendendo erradamento o termo "tabatinga", julgou que fosse uma árvore ou arbusto, daí concluir que emba era "um pó mágico, feito de folhas" (Bastide, 1960, p. 285). Com a emba o embanda friccionava "os pulsos, a testa e o occipital do caialo" (Nery, 1963, p. 8). Esta também é outra das identidades entre a Cabula e a Macumba, Quimbanda e Umbanda de tradições africanas. 

A emba da Cabula é a atual pemba dos terreiros, tabatinga branca ou em cores, compactada em pequenos bastões e usada para traçar pequenos sinais ou cruzes na fronte, pulsos, peito, peito-dos-pés dos filhos-de-santo. Exatamente nos mesmos locais do corpo iniciado, assinalados pelo embanda com a emba sobre os caialos na Cabula. O rito, atualmente em processo de desaparecimento, é aplicado, segundo informações colhidas entre 1968 e 1972 com os pais-de-santo, nos rituais semelhantes ao da iniciação da Cabula. Além deste uso, é aplicado em alguns terreiros, também, sobre os mesmos pontos do corpo de pessoas que estejam se debatendo “possuídas” por “obsessores” nos terreiros. Finalmente é usada no traçado dos pontos-riscados nas tábuas de pontos. Após a assinalação, era-lhes entregue a raiz para mastigar e engolir o suco e um cálice de vinho para beber. Concluía-se assim, a iniciação. Pronto o caialo, o embanda o conduzia ao lugar que daí por diante ocuparia na engira, entre os camanás. Todos os caialos atendidos era a vez dos camanás. Mastigavam a raiz, ingeriam-lhe o suco e bebiam do vinho. Novo nimbu era entoado ritmicamente acompanhado pelas palmas dos camanás.


O RITUAL DA VELA ACESA

Na sequência ritual o embanda tomava uma vela acesa, benzia-a e começava a "passá-la por entre as pernas, por baixo dos braços e pelas costas" de cada camaná. Este mesmo rito ainda hoje é praticado nos terreiros de Macumba por filhos-de-santo “incorporados”, especialmente, com Exus. O rito é usado algumas vezes associado à defumação pela fumaça do cachimbo ou charuto que a entidade esteja fumando, com a finalidade de purificar o consulente e liberá-lo das supostas “cargas negativas”, que lhe estejam aderentes ao corpo. Este é mais um dos ritos que vinculam a Macumba à Cabula.

Na Cabula, a permanência da vela acesa, não obstante os deslocamentos no ar pela mão do embanda abaixo e acima, à direita e à esquerda do corpo do camaná, revelava ao embanda a fé do camaná. O lume aceso patenteava a robustez de sua fé no culto e em suas “entidades”, por essa razão, quando se apagava a vela diante de algum camaná, gritava o embanda:

- "Por conta de quem camaná fulano não tem ca-fé, ca"tudo?" (Nery, 1963, p. 8)

O cambone respondia, mas a falta de fé era punida com duas, três ou quatro palmadas com o “quimbandon”, a palmatória, até que a vela não mais se apagasse. Os castigos eram frequentes e aplicados pelo embanda para aperfeiçoar os camanás.


A TOMADA DO SANTÉ

Comprovada a fé de todos os camanás, chegava-se ao ápice do ritual: "a tomada do Santé". Esta expressão requer análise. À uma leitura de afogadilho, crer-se-ia que o Santé fosse uma bebida, algo que se toma, bebe. Na realidade significa ser tomado, possuído, pelo Santé. No pequeno glossário anexo ao texto, D. Nery define "Santé" como "Espírito Principal". Olga Cacciatore informa que "Santés" são os "espíritos da Natureza" (p. 75), ao que se vê, conceito semelhante ou idêntico ao de "bacuro". Roger Bastide esclarece que "Santé" é a abreviatura da palavra "santidade", presente nos primórdios da colonização do Brasil e combatida pela primeira Visitação do Santo Ofício, como atestam as Confissões da Bahia de 1591 - 1592. Era um culto sincrético, de base indígena com elementos do Catolicismo popular e o uso do fumo.

O "espírito de santidade", ou "Santé" era o transe obtido pela inalação do fumo do tabaco, "a erva sagrada" (Bastide, 1960, p. 241-242; 285). O termo foi assumido pelo Culto dos Caboclos, mais ou menos cristianizado e disseminado pelo sertão nordestino, estando nas origens do Catimbó atual. Dele, provavelmente, os cabulistas tomaram a expressão para designar esta parte central do ritual. A "tomada do Santé", portanto, significa "receber o Santé", isto é, “incorporar”, ou como é dito na Macumba carioca "receber o santé” ou “o santo" O termo "santé" ainda hoje é usado nos terreiros de Macumba e mesmo de Umbanda, como ouvi expresso pelo pai-de-santo do extinto Templo Umbandista da Legião Espiritualista de Assistência Social, na rua S. Clemente n9 321 em Botafogo (RJ) durante as pesquisas de campo realizadas entre 1968 e 1972.

Informa D. Nery que a "tomada do Santé" era o "ponto principal de todas as reuniões" (1963, p. 8). O fato corresponde exatamente à finalidade central de todas as sessões de Macumba, Quimbanda e Umbanda: "receber” as entidades, para que “venham trabalhar e fazer caridade", como dizem. Nessa expectativa dobravam um lenço branco em forma de fita, cingindo com ele a testa e amarrando-o à nuca. Como D. Nery havia relatado que no início da engira todos os camanás já o haviam feito, supomos que o reiterar a referência esse momento queira se referir aos novos camanás recém-iniciados. 

Para aumentar a concentração psicológica do grupo, reduziam a intensidade luminosa da fogueira e perfumavam o ambiente queimando incenso ou rezinas aromáticas. Os dois procedimentos rituais ainda hoje são usados nos terreiros de Macumba para criar condições ambientais propícias à entrada em estado de transe e à “possessão” pelas “entidades”. Houve nessa continuidade histórica, contudo, um deslocamento: a incensação foi antecipada, realizando-se no início de todo o ritual, como cerimônia preliminar de purificação do ambiente, antes de se iniciarem as giras, mas, a redução da luminosidade continua como preparação ambiental imediata para a “descida” das “entidades”, como se fazia nas engiras da Cabula. Agora, nos terreiros, onde não se acendem fogueiras, apagam-se as lâmpadas comuns ou de luz fria e acendem-se pequenas lâmpadas azuis, para dar ao ambiente uma luminosidade difusa de luar.

Criado o condicionamento imediato para a “possessão” pelo Santé, entoava-se o cântico evocativo. Ao ritmo das palmas, informa D. Nery, dançava o embanda, "esforçando-se com grandes gestos e trejeitos, para que o Espírito se apoderasse de todos. Quase sempre há em cada Mesa mais de um Embanda e o esforço do Embanda chefe é no sentido de dar o Santé aos Embandas inferiores, para que sejam dali afastados" (Nery, 1963, p. 8]. O relato desta parte do ritual é confuso, embora coerente no início, com o que vem sendo narrado e que ainda se observa atualmente nos terreiros de Macumba. O final parece contraditório. Vejamos: 

Informa que "quase sempre há em cada Mesa mais de um embanda". Se entendermos o termo "embanda", como vem sendo usado até agora, com o sentido etimológico de sacerdote do culto banto na Cabula, a frase informa que na Cabula não havia um único embanda, mas vários, em hierarquia. Um embanda chefe e outros embandas subordinados, ou subchefes. Essa hierarquia ainda se encontra hoje nos terreiros de Umbanda, procedentes da antiga Macumba, como constatamos, entre outros, no Templo Umbandista da Legião Espiritualista de Assistência Social, acima citado; na Tenda Espirita Pai Jerônimo, rua Barão de Ubá, 423 - fundos (Praça da Bandeira); na Tenda Mirim, Av. Marechal Rondon, n9 597 (S. Francisco Xavier) (V. C. Costa, 1983, p. 313; 496-97; 22).
- Diz-nos que a preocupação e trabalho do "Embanda chefe é de dar o Santé aos embandas inferiores", portanto, ajudar, criar condições para que também os "embandas inferiores incorporem as entidades”. Até aqui, tudo lógico. Mas a subordinada final - "para que sejam dali afastados" - parece ilógica! "Dá-se o Santé aos embandas" para afastá-los do ritual? Isto não tem sentido na lógica do ritual.

"Embandas inferiores" estariam sendo usados como sinônimo de "espíritos inferiores", que devem ser afastados? Neste caso, o termo "embanda" não está sendo usado com o significado de "sacerdote" mas de "espírito", "Santé", tornando equívoco o relato. Quando nos terreiros os adeptos “recebem” suas entidades não se afastam do terreiro. Permanecem nele, “incorporados”. Como consequência, as entidades que “incorporam” não se afastam, antes, tornam-se “presentes”, por meio da “incorporação”. Assim, não se entende como possam "ser afastados", sejam os "embandas inferiores", seja o "Santé". Cremos que o impasse esteja no uso equívoco do termo embanda. Parece-nos que para o trecho ter lógica é necessário manter o termo "Santé" como designando o "espírito principal", que pode ser dado a todos os "embandas inferiores". Desse modo, o "espirito principal", o Santé, por sua força preternatural afastaria os "espíritos inferiores", perniciosos e prejudiciais, presentes no ar, no local do ritual. Esses "espíritos inferiores", prejudiciais, razão pela qual devem ser "afastados" — corresponderiam ao que hoje nos terreiros de Macumba se designa como quiumbas e obsessores. Cremos ser esse o sentido do texto, pois, no parágrafo seguinte, informa D. Nery que "de espaço a espaço todos [atiravam] emba para o ar, a fim de que se afastem os maus espíritos". (Nery, 1963, p. 8-9)

Esse gesto ritual — "atirar emba para o ar" — não teve continuidade na Macumba e muito menos, na Umbanda atual. Permanece característico da Cabula, por ter sido a emba — hoje, pemba — compactada em bastonetes para seu atual uso. Na forma arcaica de uso, como pó, é possível e tem sentido, "atirá-lo para o ar", pois, as partículas do pó sagrado, espalhando-se na atmosfera, entravam em contato com os "maus espíritos", que nele se encontrassem afastando-os pela incompatibilidade mágico-religiosa da natureza sagrado-benéfica da emba oposta à maléfica dos maus espíritos.

Além desta finalidade, o rito tinha também uma segunda: "cegar os profanos" para que não vissem ou devassassem os sagrados mistérios. As partículas da emba no ar atingiriam os olhos dos profanos curiosos.


A POSSESSÃO PELO SANTÉ

"De repente um deles, geralmente o embanda, verga o corpo, pende a cabeça e rola pelo chão, em contorções. A fisionomia torna-se contraída, todo o corpo como que petrificado e sons estertorados lhe escapam do peito. É o Santé que dele se apoderou". (Nery, 1963, p. 9)

Esta descrição corresponde ao estado de transe "selvagem" nos terreiros de Macumba, Umbanda e Quimbanda, no qual o iniciado ainda não aprendeu a 'receber' a entidade, permanecendo de pé, sem rolar pelo chão. Pode também ser a fenomenologia da assim dita “incorporação” de Exus e obsessores na Macumba, Umbanda e Quimbanda. Esse modo violento e doloroso, para os que são objeto deste tipo de transe, no dizer dos pais-de-santo dos terreiros, pode ser sinal da “presença” ou de um obsessor ou a forma "punitiva", com que uma entidade “castiga” um filho-de-santo, que fez algo que lhe proibira, ou por ter infringido algum interdito cúltico. Como "punição" por “entidade superior” a fenomenologia é rara. As convulsões, contorções, jogar-se ao chão, esfolando-se no pavimento, na explicação dos pais-de-santo dos terreiros, são características do modo de se “apresentar” dos obsessores. Como é perceptível, essa tipologia comportamental corresponde, na verdade, a um estado psíquico conflitual violento, que tolhe ao adepto todo o autocontrole.


A POSSESSÃO DOS CAMANÁS PELOS SANTÉ

“Receber” o Santé não era privilégio exclusivo dos embandas-chefes e subalterno. Também os simples iniciados, os camanás, o podiam e, de fato, o “recebiam”. Quando isto sucedia, os camanás “possuídos” pelo Santé, se transformavam psico-comportalmente. Informava D. Nery: "nesse período [o camaná] fala e discorre, sem ter aprendido, sobre as cousas cabulares, como o mais perfeito e sabido dos embandas" (Nery, 1961, p. 9). O camaná que “recebesse” o Santé se destacava de pronto dentre os demais e ascendia rapidamente ao status de embanda.

Do visto, ser “possuído” pelo Santé oferecia vantagens. A promoção no culto não era a maior decorrência de algo ainda mais precioso e buscado tenazmente pelos que se iniciavam no culto: a aquisição de um “espírito” que os “guiasse”' e “protegesse” em todas as necessidades duríssimas de suas vidas de escravos ou ex-escravos. Ter um “espírito-guia” era ter um "protetor" precioso. Esse "guia" e "protetor" buscado era “encontrado” por meio do Santé, do estado de transe. Daí todos trabalharem e se esforçarem por entrar em transe — ter o Santé — sujeitando-se, para isso, no dizer de D. Nery, a "diversas abstinências" e "ridículas penitências" (963, p. 9). Aqueles que conseguiam "ser tomados pelo Santé" buscavam imediatamente "obter o seu espírito familiar protetor, mediante a cerimônia ritual de embrenhar-se no mato com uma vela apagada e retornar com ela acesa, não tendo levado consigo meio algum para acendê-la — o que implica o conhecimento do modo de obter fogo por meio de atrito de madeiras ou de chispas de pedras — Com a vela acesa o camaná devia trazer o nome do seu "espírito protetor" sendo os mais comuns: Tatá Guerreiro, Tatá Flor da Carunga, Tatá Rompe Serra, Tatá Rompe Ponte, etc.

A busca cabulística de um "guia" e "protetor" para as dificuldades da vida diária se repete na agonizante Macumba e nas suas continuadoras, a Umbanda e a Quimbanda, decorrentes de sua cisão. Também no que atine aos nomes desses "espíritos protetores" há uma relativa continuidade entre a Cabula e a Macumba, Umbanda e Quimbanda. Muitos deles, com variações de significado e aplicação, ainda são perceptíveis nos atuais terreiros:

- O termo "tata", como já vimos, desapareceu como prenome de entidade, adotando novos significados.

- "Carunga", hoje dito caiunga [calunga], não é mais cultuado, como entidade protetora pessoal. Permanece como arcaico nome banto do oceano: a caiunga-grande. Como força preternatural, objeto de culto, foi substituído no Brasil, por lemanjá, conceito ioruba, que no Brasil, passou a ser a orixá do mar.

- Os designativos acoplados ao verbo "romper" – significando "força preternatural": "rompe serra", "rompe mato", "rompe ponte"... — ao lado da formação de novos nomes de significado similar — ainda continuam a existir nos terreiros atuais, mas aplicados a Caboclos (pseuda alma de índios) tais como: Caboclo Rompe Serra, Caboclo Rompe Mato etc.

Com essas informações encerra D. Nery o seu relato sobre o ritual. Não tendo a preocupação etnológica, mas apenas o "zelo pastoral" de "tomar algumas notas [oferecidas] à consideração e ao estudo dos curiosos" (Nery, 1963, p. 5) não descreve a conclusão do ritual. Esta lacuna final não desmerece a importância do relato. Ainda hoje é o que de mais importante temos sobre a Cabula.


CONCLUSÃO

O estudo da Cabula apresentado por D. Nery deu-nos acesso às raízes das arcaicas formas de expressão religiosa banto no Brasil. O relato, como vimos, ajuda-nos a entender a origem de muitas das formas de expressão do culto de Macumba, que se transmitiram à Quimbanda e à Umbanda atuais, no que ainda conservam de suas raízes africanas. Detectamos essas raízes nas identidades que procuramos levantar ao longo do trabalho, iniciando-se com o termo cafioto, usado nos primórdios da Macumba rural, passando pelas mesmas litúrgicas calças e camisas brancas pés descalços e lenço em fita amarrado à testa. Na Cabula, como na Macumba, o sacerdote do culto denominado embanda ou Umbanda, recebendo o mesmo tratamento de "pai" pelos caialos e camanás da Cabula como os atuais pais-de-santo dos terreiros de Macumba, Umbanda e Quimbanda o recebem de seus filhos-de-santo. A mesma hierarquia do embanda chefe e embandas subordinados da Cabula continuada na Macumba e Umbanda entre os pais-de-santo e os subchefes dos terreiros. Os embandas, como os atuais pais-de-santo, acolitados por cambonos com idênticas funções nos dois cultos.

A sucessão de identidades continuou nos objetos rituais: cachimbos, velas, signos cabalísticos — hoje pontos-riscados compostos de cruzes, meias-luas, estrelas de cinco e seis pontas, flechas, raios, etc. O quase idêntico uso da emba, a autal pemba, nos dois cultos. O mesmo termo "engiara" ou hoje "gira", para designar o ritual movimentado em círculos dos adeptos da Cabula, como da Macumba primitiva. O ritual cabulístico realizado em casas e nas florestas, repetindo-se nos terreiros de Macumba, Umbanda e Quimbanda, com a primeira parte nos terreiros e a conclusão das giras festivas nas matas. O termo "mesa”, designativo das reuniões dos cabulístas, ainda usual em 1939 na Macumba carioca.

A repetição — ajustada às lâmpadas elétricas dos atuais terreiros — da prática cabulística de reduzir a luminosidade da fogueira que iluminava o camucite, para favorecer a concentração psicológica dos adeptos e entrarem em estado de transe. A continuação da oração preparatória inicial do culto na atual oração de abertura dos trabalhos. A estrutura musical do culto pontilhado de nimbus ritmados pelas quatan ou liquaquá, as palmas que se repetem nos atuais pontos-cantados ao ritmo de atabaques e palmas. A permanência do nome de Carunga, o oceano, na atual designação da caiunga-grande, embora tendo cessado na Macumba o culto a ele. O termo Santé vez por outra ainda usado nos terreiros com idêntico significado de ser “possuído” por uma entidade ao entrarem em estado de transe. A “possessão” pelo Santé não privilegiando apenas o embanda chefe e os embandas subalternos mas acessível também aos camanás a repetir-se na Macumba, onde não apenas o pai ou mãe-de-santo “recebem” as entidades, mas igualmente os filhos-de-santo.

As identidades prosseguiram na mesma busca de um “guia” pessoal na Cabula como na Macumba. Os nomes dos “guias” mantidos relativamente, como “Tatá”', hoje com acentuação paroxítona e significado mais amplo. O mesmo tipo de homenagens às entidades “baixadas”, como o "vinho", para os antigos tatá e os atuais Pretos-velhos, acompanhado do mesmo uso do incenso, embora com deslocamento na sequência ritual. O rito da vela acesa, passada ao redor do corpo do camaná continuado nos terreiros de Macumba, Umbanda e Quimbanda em torno do corpo dos consulentes atuais. Por último e ainda que em processo de esquecimento, o uso cabulístico da prova do candaru para autentificar a “possessão” por uma entidade.

Este acúmulo de identidades, a nosso ver, não só revelam a origem banto comum dos dois cultos, como sugerem uma continuidade histórica, intermediada por um período de encasulamento e metamorfose da Cabula na atual Macumba, esta, ressurgida algumas décadas após, a princípio, na área rural e, em seguida, inserida no contexto da periferia urbana da cidade do Rio de Janeiro, com extensão para São Paulo e Espírito Santo, na Umbanda.


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RODRIGUES, R. Nina. Os Africanos no Brasil. São Paulo: Editora Nacional, 1932.


[1] O autor deste artigo utiliza a palavra “rizoma” no sentido em que os filósofos pós-modernistas Gilles Deleuze e Felix Guattari dão a ela, no qual o rizoma seria algo que surge de algum “acidente” impossível de ser descrito, mas que de alguma forma irrompem e alteram o fluxo histórico, articulando novas ideias e pensamentos.
[2] Note-se que Jacy Rego Barros chama o Sacerdote da Cabula de Umbanda e não de Embanda, como o faz D. Nery, entre outros. É necessário que se destaque isso, pois esse nome se tornará o nome de uma religião no Século XX.

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