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quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

O mistério da Macumba
curiosas revelações sobre os ritos africanos no Brasil

Por Carlos Alberto Nóbrega da Cunha


(Matéria publicada no Jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, em 04 de setembro de 1923, p. 1 e 5. O português foi atualizado para as normas vigentes. Notem o preconceito em toda a matéria.)


- Introdução do redatorMacumba é o nome de um instrumento musical, idiofônico, semelhante ao reco-reco, que era usado durante as práticas afro-religiosas, que ao longo do tempo passou a designar a própria prática. Em razão do racismo estrutural e da desconsideração das religiões afro-brasileiras, impôs-se à Macumba um sentido pejorativo, de feitiço, "magia negra", embuste, fetichismo, entre outros adjetivos. No entanto, na mesma época, entre o final do século XIX e início do XX, havia anúncios nos jornais das orquestras de Macumba, que animavam os clubes de dança e as festividades populares. Espera-se que esse artigo colabore para compreender o pensamento de parte da sociedade brasileira no início do século XX e de como essa sociedade olhava para as práticas afro-religiosas.




Um esboço da cosmogonia, segundo os ensinamentos dos “Pais de Santo” (1)

Uma revelação desconcertante para o leitor: os povos bárbaros da África, como os índios selvagens da América, não são fetichistas, nem praticam simplesmente o animismo: são espiritualistas.

Lançada assim, a afirmativa causará espanto, pois a opinião universal – contraditada apenas de maneira vaga por poucos sábios – admite piamente os ensinamentos de missionários que viram feitiço em tudo que se afastava da sua fé ou de viajantes e etnógrafos materialistas que, observando as coisas superficialmente, reduziram a totemismo ou a animismo todas as manifestações religiosas, cujo sentido interno não puderam penetrar.

A verdade, entretanto, é o contrário. E a prova, quanto aos africanos (dos índios tratarei quando se me oferecer outra oportunidade), pode ser encontrada aqui mesmo no Brasil, entre os descendentes dos milhões de escravos que durante três séculos de martírio, amassaram com suor e sangue os alicerces econômicos da grandeza nacional. Eles trouxeram para o solo americano costumes, danças e ritos originários de suas terras e seus descendentes ainda os conservam e praticam na forma quase primitiva, se bem tenham sido influenciados pelo Catolicismo.

Estudando-se esses ritos em torno dos quais já correm lendas, pode-se observar a capacidade criadora de raças inferiores, que não obstante um grande atraso intelectual, tinham alcançado, desde tempos imemoriais, uma alta concepção da vida e do universo, notável, principalmente, pela sua extraordinária semelhança com nossa concepção bíblica, segundo a moderna exegese dos tratadistas do Espiritismo e da Teosofia, fora do espírito dogmático do Catolicismo.

Todas as formas religiosas africanas praticadas no Brasil, com denominações várias e pequenas divergências de detalhes no dogma e no ritual, conforme as regiões de onde procedam, são, na essência variantes da Macumba, rito que me parece a expressão mais primitiva e rudimentar do espiritualismo. Senão, vejamos.

 


O DOGMA

O dogma da Macumba é simples, ao contrário do ritual que, como o de todas as religiões no seu período primitivo, é tremendamente complicado.

Para sua fácil compreensão, convém ficar salientado aqui a existência das variantes a que me referi e que são seitas ou escolas, simples maneiras, ligeiramente diversas, de se interpretar o dogma ou cumprir o ritual, peculiares às diferentes raças e a cada uma das quais os adeptos, entre si, dão a denominação de linha de Umbanda, dos povos de Angola e do Congo, que é a mais conhecida nesta capital e que recebeu mais direta e profunda influência do Catolicismo; a linha do Candomblé, praticada largamente na Bahia pelos indivíduos da raça nagô, oriunda de certa região vizinha do Dahomey, à qual etnógrafos europeus atribuem, não sei por que, uma religião do sangue, cuja natureza, infelizmente não sabem explicar nas suas obras; a linha de Gêge, dos indivíduos da raça do mesmo nome; e outra, ainda, de menor vulto, dada a diminuta porcentagem de representantes de outras raças negras no Brasil.

A linha de Umbanda, suponho, deve ser uma forma eclética, pois parece uma verdadeira fusão das outras linhas, das quais contém inúmeras características. Por esse motivo e pela dificuldade de examinar, num simples artigo de jornal, cada uma delas, de per si, tomo aquela para objeto deste ligeiro estudo.



CONCEPÇÃO DO UNIVERSO E DA VIDA

Religião de povos atrasados e incultos, a Macumba não possui uma bíblia que coordene e transmita a doutrina. O seu dogma está na tradição oral dos adeptos e vem passando, de geração em geração, sendo, por isso, absolutamente impossível assinalar-lhe uma origem, um fundador, uma história.

Tendo feito, no bas-fond[1] carioca, um inquérito meticuloso e paciente que durou anos, cheguei, finalmente, depois de muita observação e muitos interrogatórios, ao seguinte esboço de cosmogonia segundo os ensinamentos dos “pais de santo”:

I – O Universo é único sob dois aspectos: um visível e o outro invisível. Todos os seres – anjos, homens, animais, plantas, pedras etc. – participam dessa dupla natureza e tem, portanto, dois aspectos: corpo e alma, isto é, visível e invisível.

II – Oxalá é o Rei do Universo, divindade suprema, pai e senhor, absoluto de tudo e de todos, cuja vontade criou e mantém o céu, a terra, o mar, os astros e todos os seres. (2)

III – Oxalá é bom porque é pai e é justo porque é bom. Tudo que faz é bom, mesmo parecendo mau para as suas criaturas e útil a elas, porque só ele sabe o que é bom, o que é justo e o que é útil.

IV – Oxalá mora no céu, num palácio maravilhoso e encantado, para lá da Lua, para lá do Sol, ainda mais para lá da região azul das estrelas.

V – É de seu trono, que há de ser deslumbrante pois que é o rei de tudo, administra o Reino por intermédio de uma infinidade de servidores, agentes da Sua vontade, fiéis executores de Suas ordens, que percorrem os quatro cantos do mundo como pássaros, como ventos.

VI – Os servidores de Oxalá são entidades de ordem espiritual, dotadas de poderes proporcionais ao atingidos na hierarquia. São três esses graus: Tata, Orixá e Quiumba. Correspondem, pelas funções na hierarquia do Catolicismo, a: Arcanjo, Santo e Alma.

Os Tatas têm a seu cargo a direção de grandes divisões do Universo e, deles, o maior é o próprio Oxalá, que recebe, por isso, a denominação de Tata Grande. Os Orixás são os zeladores dos reinos da natureza e dos agrupamentos humanos, como os santos católicos são padroeiros de países, cidades e instituições. Os Quiumbas são as almas dos mortos, que, separadas dos seus antigos corpos vagam no espaço, enquanto esperam novo nascimento. O Quiumba nasce para penar. Morre, voltando ao aspecto invisível e, no intervalo de duas vidas, vagueia pelos lugares em que viveu, acompanha e auxilia os parentes e amigos ou persegue os inimigos, se ainda lhes conserva ódio. À proporção que se sucedem as suas reencarnações, melhora, desenvolve-se, adquire conhecimentos e poderes e vai, assim, tornando-se aos poucos em Orixá. Este, por sua vez e pelo mesmo processo, pode chegar a Tata.

VII – Cada Quiumba encarnado, isto é, cada um de nós, não está abandonado sobre a superfície da terra, poque um Orixá, tal como o Anjo da Guarda do Catolicismo e o Protetor do Espiritismo, acompanha-lhe os passos atentamente, procurando orientá-lo no caminho bom e desviando os perigos que o ameacem. Esse Orixá é o Santo de cada um.

 

Por esse esboço que resumi, reproduzindo, com a mais próxima fidelidade, as ideias e até as expressões dos macumbeiros, verifica-se quanto eles se avizinharam da concepção bíblica, criando uma religião espiritualista bastante adiantada, no dogma, pelo menos, relativamente ao atraso intelectual em que se encontram anda hoje.

 

HIERARQUIA DOS ADEPTOS

A hierarquia dos adeptos comporta quatro graus: Cafioto (filho), simples crente que observa e cumpre as regras do rito; Ogan (masculino) e Gibonan (feminino), homem e mulher por cujo corpo, dotado de qualidades mediúnicas, os Orixás e Quiumbas se manifestam nos atos do cerimonial; Cambondo, ogan instruído nos principais mistérios da linha e que, por isso, desempenha as funções de auxiliar ou sacristão do Sacerdote; Pai e Mãe de Santo, sacerdote e sacerdotisa do rito, que conhece os mistérios, dirige as cerimônias, invoca os Orixás e os Quiumbas, faz e desfaz trabalhos.


 

O “CANZOL” (figura 1)

A Macumba não tem organização, nem há, entre as diversas linhas como entre os próprios “Pais de Santo” de uma mesma linha, nenhum entendimento, nenhuma opinião, nenhuma ideia de solidariedade que as ligue num corpo só com um aparelhamento estabelecido, conforme sucede às outras religiões.

Por isso, não há, também, Templos para o culto, nem escolas onde se preparem os candidatos ao sacerdócio. Cada “Pai de Santo” pontifica isoladamente perante o seu povo. Ele mesmo inicia os cafiotos no rito e ensina a mironga da sua língua aos que demonstram aptidão para o grau de ogan ou de gibonan, como prepara estes para cambondos, escolhe, instrui e sagra os futuros “Pais de Santo”. Daí, as pequenas divergências que se observam dentro da mesma linha na interpretação do dogma e na prática ritual.

Todo “Pai de Santo” tem, em sua casa, um compartimento especial, que recebe a denominação de Canzol, reservado para o oratório, no qual ele arma o estado do seu santo, espécie de altar como o das igrejas, contendo imagens e uma infinidade de objetos utilizados no culto ou no preparo dos trabalhos: espadas – símbolos dos poderes dos Orixás de raça branca, como Ogun (São Jorge) e Xangô (São Sebastião); flores, conchas e pedras do fundo do mar – símbolos dos Orixás das águas, como Yamanjá (Yara dos indígenas e Mãe d’Água dos caboclos); arco e flechas – símbolos dos poderes dos Orixás do mato, como Poê, Pombagira, Eixun; espingarda do tipo pica-pau – símbolos dos poderes dos caboclos; paus, bengalas, porretes – símbolos dos poderes dos Orixás do Congo, da Angola e da Guiné. Além desses objetos simbólicos há sempre no Canzol: facas, cachimbos, pólvora, cera, fumo, ervas, sementes, peles e chifres de animais, figas, bentinhos, giz, pedra de cevar, búzios, colares especiais de vidrilho ou de taquarinha, chamados guias de santo e que todo indivíduo, ao ser iniciado no rito, recebe das mãos do “Pai de Santo” e passa a usar, no pescoço, durante o resto da vida.

O Canzol conserva-se fechado comumente e só se abre, nos dias de cerimonial, para a retirada dos objetos do culto ou, em ocasiões especiais, para a realização de trabalhos secretos, como fechamento de corpo e outros, que não devem ser executados diante de todos os fiéis.

 

O RITUAL

O ritual da Macumba é uma série de cerimônias de invocação aos Orixás e aos Quiumbas, empregando-se cânticos, danças, encantamentos e operações mágicas para que eles, incorporando-se ao ogans ou às gibonans, possam entrar em comunicação com os fiéis e atender aos seus pedidos.

Tudo se passa ao ar livre, no terreiro, e, só em caso de chuva ou de receio da polícia, é que se executa dentro de casas e a portas fechadas. Forma-se uma grande roda em que homens e mulheres tomam posição em pé ou sentados em pedras, troncos, tamboretes ou bancos, sem ordem de colocação. Apenas os tocadores de atabaques (tambores cônicos feitos de troncos escavados) ficam todos mais ou menos juntos, devido à necessidade de uniformizar o ritmo, elemento de suma importância no cerimonial.

É, então, que o “Pai de Santo”, depois de ter feito algumas orações no Canzol aparece, acompanhado pelos cambondos e todo paramentado, isto é, metido numa camisa vermelha e com a cabeça enfiada num gorro da mesma cor, tendo nos lados e no forro uma cruz e um friso dourados, coloca-se no centro da roda e dá início ao cerimonial, fincando no chão uma vela acesa entre dois copos contendo água. Ajoelhado ante à vela, sacode com a mão direita e atira à frente o sangôrôrô (meia dúzia de búzios), cantando, ao mesmo tempo, o ponto de licença para abertura da mesa, isto é, da cerimônia a realizar-se, ponto que os fieis, em coro, repetem como uma ladainha. (figura 2)

“Dá licença, Oiê,

Dono do Reino?

Dá licença, Oiê,

Dono do Reino?”

Conforme a posição dos búzios – caindo metade branca, metade preta, ou a totalidade de uma cor só cor – considera-se dada a licença. Se, porém, há desencontro, repete-se a operação mais duas vezes e, segundo o resultado, faz-se ou não a cerimônia.

Dada a licença, levanta-se, suspende-se o ponto que estava sendo cantado e, em silêncio, reza mentalmente, durante alguns minutos, certas orações que só ele sabe e só transmite aos cambondos, quando os sagra sacerdotes. Depois, com o dedo, risca no chão o signo cabalístico do Orixá que vai arriar e começa a cantar, acompanhado pelo coro dos adeptos e pelo ritmo monótono dos atabaques, uma outra oração especial para invoca-lo, porque para cada um há signo e iman próprios. Ao mesmo tempo chama para o centro da roda e coloca, em duas filas, numa os ogans e noutra as gibonans, para a dança, que, então, se inicia e dá a impressão de uma quadrilha bárbara que os indivíduos se movem isoladamente, sem formação de pares, mas mudando de posição segundo o canto como se este marcasse o desenvolvimento do bailado. Os fieis repetem o iman [cântico], acompanhando-o com palmas.

Em pouco tempo começa a exaltação dos sentidos. A ladainha acelera-se, acelerando a dança e transformando a expressão fisionômica dos indivíduos, cujos olhos arregalados e fixos, parecem, então, encobertos por uma névoa vitrificada.

Aproxima-se o momento de descida do Orixá. O “Pai de Santo”, sentindo essa aproximação, cujo sucesso depende, em grande parte, da firmeza e da intensidade do ritmo – pois o que se está fazendo é verdadeiro encantamento magnético, operação empregada em todos os tempos, por todos os povos nos trabalhos de magia – entusiasma os fiéis, excitando-os com exclamações, para mais exaltar o canto e, assim, fortalecer a cadeia formada pela concentração em todas as atenções:

- É, mias fio! É, guenta iman, mias fio!

Outras vezes, e para o mesmo fim, intercala no canto o seguinte estribilho:

“Oi, chama, chama,

Que ele vem,

Oi, chama, chama,

Que ele vem!.”

É, de fato, vem. Lá pelas tantas, arria o Orixá sobre um ogan ou uma gibonan, tomando-lhe, de assalto, o corpo e incorporando-se-lhe com tal veemência que quase o atira violentamente ao chão. Levanta-se e, mal se apruma, entra a brincar, isto é, a dançar o que faz durante muito tempo. Depois, dirige-se o “Pai de Santo” e pergunta-lhe:

- Quê que mias fio qué? Ieu tá aí

Ouve os pedidos dos cafiotos. Um quer um pouco de boa sorte; outro, um conselho sobre determinado assunto íntimo que lhe segreda ao ouvido; outro, ainda, pesado, que desfaça o trabalho que lhe puseram em cima e lhe atrasa a vida;  aquele deseja um remédio para tal doença que o aflige; aquela pede uma benzedura para o seu pescoço inflamado. E há ainda quem peça muito mais.

O Orixá ouve, discute, atende e, às vezes, recusa também. Por fim, terminada a sua missão, pede que seja cantado um iman para despedida, pois deseja se retirar. O “Pai de Santo” ou ele mesmo, tira o canto. Quase sempre é o seguinte:

“Andorinha,

leva o meu anjo pro céu,

Andorinha,

leva o meu anjo pro céu!”

Mais alguns minutos de dança. De repente, com a mesma violência da incorporação, o Orixá se desprende. O ogan ou gibonan cai, então, redondamente sobre o solo, se um cambondo, que deve estar atento, não o amparar no último instante.



A RONDA DE OGUN OU DE SÃO JORGE

De todas as cerimônias rituais da Macumba, a mais interessante, pela originalidade do fato, como pelos detalhes, ao mesmo tempo cômica e trágica, apavorante e arrebatadora, é a ronda de Ogun, entidade da ordem dos Orixás, que os “Pais de Santo”, tanto os da linha de Umbanda como os das diversas outras, identificam com o São Jorge do Catolicismo. É, na opinião geral, um dos Orixás mais fortes.

Todos os anos, no seu dia, 13 de abril, faz-se uma grande festa em homenagem a esse Santo. O cerimonial é o mesmo quanto à abertura dos trabalhos, mas a invocação difere da usada em outros casos. Um cambondo escolhido para recebê-lo ajoelha-se diante da vela, e, cabeça pendida para frente estende o braço esquerdo, horizontalmente, em linha reta. O “Pai de Santo” tira, então, o seu iman:

“Ogun ê ê!

Ogun ê ê!

Depois que todos os fiéis, formando o coro, alcançam a entoação necessária, o outro cambondo, a um sinal do “Pai de Santo”, aproxima-se do primeiro e lhe despeja certa quantidade de pólvora na palma da mão e, em seguida, incendeia-a com um fósforo ou um tição. (figura 3)

Dá-se uma explosão. Imediatamente baixa Ogun, apoderando-se do seu corpo, dominando-o por completo. O “Pai de Santo”, com um novo gesto, suspende o canto e muda o ponto:

“Saravá, Ogun

Saravá (3)

Saravá, minha coroa,

Saravá!”

E o coro responde, com diferença de uma oitava no tom:

“Saravá, Ogun

Saravá

Saravá, minha coroa,

Saravá!”

Ogun, possuidor do corpo do cambondo, montado nele, o conduz aos corcovos pela roda, primeiramente acurvado, equilibrando-se com dificuldade e, depois, aos poucos, aprumando-se, até poder dançar. O canto continua, entrecortado de quando em vez, pelo “Pai de Santo” que o reforça, recomeçando:

- É, mias fio! Óia a ronda! Guenta ponto, mias fio. É, óia Ogun, mias fio, que tá no jongá.

Os fiéis, estimulados pelas exclamações do sacerdote, alteiam a voz; os tocadores redobram de energia, batendo os atabaques com mais força; e Ogun, já senhor do equilíbrio, dança com mais desembaraço. Quem o observa, sente uma sensação estranha, porque vê uma criatura humana com movimentos de boneco de engonço, e membros que não tem rigidez; o ritmo é brusco, bárbaro, suave às vezes, outras violento, mas sempre mole e desarticulado.

Em dado momento, aproxima-se de outro cambondo, puxa-o com a mesma moleza de gestos, para o centro da roda e, segurando-lhe as mãos de modo a curvar-se para a frente, esfrega-lhe a cabeça na sua até que ele, tomando por outro Ogun, recue, executando os mesmos movimentos desarticulados.

Então, o “Pai de Santo”, pegando pela lâmina, entrega uma espada a cada um. Transforma-se a dança em um duelo simulado. Brilham as lâminas no ar, como fuzis dentro da noite, em golpes de ataque ou de defesa, vibrados sempre com os mesmos gestos estranhamente moles e característicos. (figura 4)

E a cerimônia, que dura, às vezes, horas a fio, só termina quando os contendores, arquejantes de cansaço, um após o outro, aproxima-se da vela e enterram as espadas no chão, dançando ainda. O “Pai de Santo”, nesse momento, para o canto, bradando:

- Louvado seja Oxalá!

- Pra sempre seja louvado!

- Louvado seja os Tata!

- Pra sempre seja louvado!

- Louvado seja os Orixá!

- Pra sempre seja louvado!

- Louvado seja o céu que nos cobre!

- Pra sempre seja louvado!

- Louvado seja a terra que nos cria!

- Pra sempre seja louvado!

- Louvado seja o mar que nos alimenta!

- Pra sempre seja louvado!

- Louvado seja o mato que nos esconde!

- Pra sempre seja louvado!

- Louvado seja o Sol que nos esquenta!

- Pra sempre seja louvado!

- Louvado seja a Lua que nos alumia!

- Pra sempre seja louvado!

- E louvado seja, mias fio, Ogun!

- Pra sempre seja louvado!

Findada a série de louvores, canta-se, então, o iman de despedida:

“Angó, angó, mia cambondo,

Eu vai simbora.

Fica cum Deus,

Cum Nossa Senhora!”

De novo recomeça a dança, mas, ao fim de vinte a trinta minutos, cada um, de sua vez, desprende-se, deixando os cambondos extenuados.

Canta-se o ponto de encerramento:

“Encerra a mesa,

Com licença de Congo.

Encerra a mesa,

Com licença de Congo.”

Mais um gesto do “Pai de Santo” e se cala o coro. Emudecem os atabaques. Está finda a cerimônia.

 

Notas do Autor:

(1) A expressão “Pai de Santo” dada ao sacerdote da Macumba não é correta. Emprega-se no sentido de ancião que tem conhecimentos e poderes com os quais pode forçar os santos a arriarem, isto é, a tomarem parte nas cerimônias do ritual. Um “Pai de Santo”, aliás, o mais inteligente, embora inculto, de quanto tenho conhecido, dizia-me, certa vez, na sua linguagem rude e pitoresca:

- A gente anda errado chamando de “Pai de Santo”. Cavalo de santo é o que a gente é, pois os santos arria em nós.

(2) Nunca pude obter uma explicação satisfatória da formação do universo. Interroguei muitos “Pais de Santo” sobre como Oxalá fizera o mundo, mas todos eles, invariavelmente, me responderam:

- Fazendo!

(3) Saravá é corruptela de Salve.



[1] A palavra “bas-fond”, de origem francesa, designa a “camada degradada da sociedade; escória social, ralé” (Dicionário Michaelis) .um “ambiente ou grupo social inferior ou marginal” ou, ainda, um “lugar onde vive um grupo social considerado inferior” (Dicionário Priberam) ou ainda a “zona de prostituição” (Dicionário Aulete). O autor utiliza esse termo pejorativo para desconsiderar as manifestações religiosas de origem africana.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

15 de novembro é o dia nacional da Umbanda?

Por Mário Filho



Imagem retirada de: https://pqvceassim.files.wordpress.com/2017/11


Segundo a Lei nº 12.644, de 16 de Maio de 2012, o dia 15 de Novembro é o Dia Nacional da Umbanda. 

Essa data se remete ao mito criacional, típico de todas as religiões, que narra os eventos que dão o início a qualquer uma delas. O mito criacional da Umbanda dá conta que em 15 de novembro de 1908, em Niterói/RJ, o rapaz de 17 anos chamado Zélio Fernandino de Moraes teria “incorporado” o Caboclo das Sete Encruzilhadas e este teria dito que no dia seguinte voltaria a “incorporar” em Zélio e criaria uma nova religião, que se chamaria “Umbanda”. 

Muitos autores, que se fiam nesse mito criacional, afirmam que o termo Umbanda nunca havia sido utilizado, sendo que o Caboclo das Sete Encruzilhadas teria sido o primeiro a fazê-lo. No entanto, em 1894, Heli de Chatelain, em seu livro “Folktales of Angola”, registrava o termo Umbanda, mostrando seu significado, como é encontrado em qualquer dicionário Quimbundo (uma das línguas faladas pelo povo Bantu), que quer dizer “cura”. 

Ora, sabe-se que no desenvolvimento do que hoje se chama Umbanda houve dificuldade para se dar a ela um nome “adequado”. Primeiramente se pensou em Embanda (uma corruptela da palavra bantu Imbanda, plural de Kimbanda, que quer dizer “curadores”), porém, segundo o próprio Zélio, em gravação registrada, o nome Embanda “não soava bem”. Houve, ainda, a proposta de se utilizar Alabanda, em homenagem ao Orixá Malê, que Zélio “incorporava” e que dizia ser um malaio muçulmano. Assim, segundo o próprio Zélio, Alabanda significaria “a banda de Alá”, referindo-se a Allah, nome de Deus para os muçulmanos. Ocorre que Orixá Malê só se manifestou em 1923, portanto o termo Umbanda ainda não era o designativo adotado para a “nova religião”. Lembro que Malê vem do idioma iorubá, Ìmàlè, que designa o muçulmano naquela língua. 

Gilberto Velho, Maria Villas-Boas Concone, Renato Ortiz, entre outros, afirmam que a Umbanda se desenvolve a partir dos anos 1930, o que corrobora com que escrevi até agora. 

Ainda assim, com o tempo, essa Umbanda praticada por Zélio passou a ser chamada de “Umbanda Branca e Demanda” (ou, também, “Umbanda Pura”). 

O que pouco se aborda, no entanto, é que momentos antes da manifestação do Caboclo das Sete Encruzilhadas houve a manifestação de uma outra “entidade”, chamada de Pai Antônio Curador (BRITTO, 2009), que era o espírito de um escravizado. Em que pese esse fato não ser desconhecido da maioria dos autores umbandistas, que o registraram, dá-se pouca importância ao que ele representava, fruto do racismo estrutural de nossa sociedade desde sempre. Pai Antônio é o símbolo do escravo humilde, conformado com sua posição subalterna, que diz que não poderia se sentar em cadeira, “pois lugar de preto é no toco e para ele bastaria um toco para se sentar”. 

Por meio dessa configuração, formou-se “a tríade da simbologia umbandista que a narrativa fundacional do Caboclo das Sete Encruzilhadas procurou consolidar: índio valente [Caboclo das Sete Encruzilhadas], negro humilde [Pai Antônio Curador], branco racional [Zélio Fernandino de Moraes, o espírita]. (BRITTO, 2009) 

Podemos, dos parágrafos anteriores, fazer algumas conjecturas: 1) o termo “Umbanda Pura” nos levar a crer que havia uma “Umbanda Impura”, ou seja, uma prática que não atendia aos anseios da elite branca carioca do início do século XX, que abominava as práticas “fetichistas” dos pretos e que deveria ser extirpada; 2) da mesma forma que a anterior, “Umbanda Branca” denota que existiria uma “Umbanda Preta”, que deveria ser desconsiderada;  3) somente a prática que tivesse a chancela dessa elite, ou seja, que fosse baseada no catolicismo popular, com suas práticas devocionais aos Santos católicos, unida ao pretenso cientificismo do espiritismo kardecista seria “aprovada” e chamada de “verdadeira” Umbanda. 

Como se vê, para que a Umbanda fosse legitimada era necessário que ela quebrasse sua ligação com a África e, por consequência, com qualquer coisa que lembrasse os negros, exceção feita à sua subalternidade, apontada especificamente no comportamento tradicional dos Pretos-Velhos; ademais, era necessário que o mito criacional afirmasse, sem dúvida, essa legitimação: por isso a escolha do 15 de novembro, dia da proclamação da República, como data de sua “anunciação”, bem como a escolha de um Caboclo como porta-voz do “mundo espiritual”, em um momento em que a literatura romântica brasileira e o brasilianismo buscavam estabelecer, no Caboclo (indígena), o símbolo da nação. Para temperar esse caldo, o Caboclo que teria se manifestado no dia 15 de novembro de 1908 não era um simples indígena, mas a reencarnação de um sacerdote jesuíta, o “Frei Malagrida”. Dessa forma, a Umbanda poderia se inserir, de forma legítima, no universo religioso brasileiro, pois estava totalmente de acordo com os anseios dos ideais branco-europeus: era cristã, tinha as bênçãos da Igreja Católica e era espírita (por isso ela se chamava “espiritismo de Umbanda”, denominação pela qual foi conhecida por muitos anos). (SILVA FILHO, 2014) Além disso, o Caboclo não era o "selvagem", o "arredio", que lutava contra o colonizador ou contra os Bandeirantes, mas o indígena que submeteu, que se convertera ao Catolicismo, que abandonara sua tribo; é o "Índio Peri" do romance "O Guarani" de José de Alencar.

Assim, práticas religiosas realizadas desde o Século XVII e que influenciaram diretamente a Umbanda, tais como a Santidade, o Calundu, o Cangerê, a Cabula, a Nbandla e a Macumba, além, é claro do Candomblé “de Caboclo”, Candomblé “de Nação” e o Culto Muçurumim (ou Malê) foram sistematicamente “desaparecidos”, pois eram realizados por indígenas (a Santidade) ou por escravizados ou ex-escravizados. Esse apagamento perdura até hoje e a imensa maioria dos umbandistas não quer discutir esse fato, pois repetem o mesmo discurso do mito da "democracia racial" de Gilberto Freire. Esses saberes foram vítimas do epistemicídio, que pode ser compreendido como a morte de saberes, conhecimentos e culturas de povos, que não são absorvidas pela cultura branca, ocidental (SOUZA SANTOS, 2007), fruto do colonialismo e do racismo. 

Citando a filósofa Sueli Carneiro, atual Coordenadora Executiva do Instituto Geledés e uma de suas fundadoras, podemos dizer que esse espistemicídio é “um processo persistente de produção da indigência cultural: pela negação ao acesso a educação, sobretudo de qualidade; pela produção da inferiorização intelectual; pelos diferentes mecanismos de deslegitimação do negro como portador e produtor de conhecimento e de rebaixamento da capacidade cognitiva pela carência material e/ou pelo comprometimento da autoestima pelos processos de discriminação correntes no processo educativo. Isto porque não é possível desqualificar as formas de conhecimento dos povos dominados sem desqualificá-los também, individual e coletivamente, como sujeitos cognoscentes. E, ao fazê-lo, destitui-lhe a razão, a condição para alcançar o conhecimento “legítimo” ou legitimado. Por isso o epistemicídio fere de morte a racionalidade do subjugado ou a sequestra, mutila a capacidade de aprender etc.” (CARNEIRO, 2005, p. 7) 

Continua, a filosófa: “[o epistemicídio é] um processo persistente de produção da inferioridade intelectual ou da negação da possibilidade de realizar as capacidades intelectuais, o epistemicídio nas suas vinculações com as racialidades realiza, sobre seres humanos instituídos como diferentes e inferiores constitui, uma tecnologia que integra o dispositivo de racialidade/biopoder, e que tem por característica específica compartilhar características tanto do dispositivo quanto do biopoder, a saber, disciplinar/ normalizar e matar ou anular. É um elo de ligação que não mais se destina ao corpo individual e coletivo, mas ao controle de mentes e corações.” (CARNEIRO, 2005, p. 7) 

Renato Ortiz, no prefácio da 2ª edição do livro “A morte branca do feiticeiro negro: Umbanda e sociedade brasileira”, afirmou que no final da década de 1970 começou a se esboçar um “fenômeno de re-africanização”, como, por exemplo, a revalorização do Candomblé. No entanto, o autor afirma: “é interessante lembrar que não foi para a Umbanda que esse esforço de valorização se dirigiu. A religião umbandista, ao se definir como nacional, de alguma maneira infligiu uma morte branca ao seu passado negro.” 

Renato Ortiz continua: “como uma religião brasileira, a Umbanda foi obrigada a integrar sua cosmologia às contradições de uma sociedade de classe, que assina ao negro uma posição subalterna dentro de um mundo de dominância branca.” (ORTIZ, 1988, p. 8) 

Sendo, assim, pela Lei, hoje, 15 de novembro, é o dia Nacional da Umbanda, mas essa data não corresponde aos fatos que envolveram a manifestação pública do Caboclo das Sete Encruzilhadas. É mais uma reafirmação do poder da elite branca, racista, esnobe e antropofágica brasileira.

 

 Referências bibliográficas:

   BRITTO, Cristina. O puro e o híbrido: o jogo de alteridades na formação representacional da Umbanda Branca. In: REVISTA CALUNDU - (Re)Existência: relatos sobre existência e resistência afrorreligiosa. Volume 3, Número 1, Jan-Jun 2019, disponível em http://calundu.org/revista, consultado em 15/11/2020.

   ORTIZ, Renato. A morte branca do feiticeiro negro: Umbanda e sociedade brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1991.

   CARNEIRO, Aparecida Sueli. A Construção do Outro como Não-Ser como fundamento do Ser. Tese de doutoramento. São Paulo: FEUSP, 2005.

   CHATELAIN, Henri. Folktales of Angola. Whitefish: Kessinger Publishing, 1984.

   SOUZA SANTOS, Boaventura. Pela Mão de Alice. São Paulo: Cortez Editora, 1995.

   SILVA FILHO, Mário Alves da. CHEGA DE ESTULTICE: estudo etimológico das palavras Umbanda e Kimbanda. Disponível em: https://pensamentovoa.wordpress.com/2015/05/13/94/, consultado em 15/11/2020.



segunda-feira, 15 de junho de 2020

Culto de Orixá não é adoração a ídolos


Culto de Òrìṣà (Orixá) não é adoração a ídolos

Por Ọba Adéyíká Òjòpagogo (International Council for Ifá Religion)
Tradução Mário Filho




A palavra “ídolo” é derivada do termo grego εἴδωλον (eídōlon) que significa imagem. No continente africano, nunca vi, li ou ouvi algo sobre a existência de uma imagem de Deus, seja na forma de uma figura, escultura, entalhe ou desenho que possa, indubitavelmente, provocar ou promover o pensamento do ser humano a fazer ideia de uma possível “morfologia” (corpo ou forma) de Deus. É muito claro para um yorùbá que Olódùmarè (Deus) é transcendental e, portanto, beira à abominação e autoengano representar Deus em qual forma for. 

Reconhece-se que imagens podem ser concretas ou verbais. Dessa forma, para a mente de todo africano, Deus é a Força Suprema, devidamente reconhecida como real, ativa, viva e onipresente governando a terra e os céus e, de fato, todo o Universo. 

É indiscutível, como explicamos anteriormente, que o modo de “serviço” à Força Suprema feita pelo africano (por iniciativa dos Òrìṣà), por meio de propiciações, que não há “imagem” visível de alguma forma que seja adorada. Objetos da Natureza, cujo benefício de seu uso foi encontrado pelos Òrìṣà (enquanto estiveram na Terra), são utilizados apenas como substrato para magnetizar a essência dos Òrìṣà que estão sendo propiciados. Os yorùbá creem que os Òrìṣà são intermediários entre eles e Deus quando invocados ou chamados (por súplica e outros meios); creem, também, que essa intermediação é desfeita quando os Òrìṣà são ignorados, negligenciados ou abandonados. 

Por óbvio, deve-se reconhecer que há uma diferença entre “cultuar algo” e “estar diante de algo para cultuar”. Assim, a melhor forma de serviço a Deus é conhecida pelos intermediários, que possuem mais proximidade com Ele e estão sempre em Sua Presença. Assim, aceitar, chamar ou identificar a Religião Tradicional Yorùbá como forma de adoração a ídolos requer melhor entendimento a respeito do significado a palavra ídolo, por questão de lógica. Dessa forma, é um mau uso das palavras, feita por pessoas mesquinhas, que chafurdam em escárnio e infundada condenação as quais pertencem a eles quando, especialmente, encontram-se afastadas de pesquisas profundas e significativas daquilo que lhes pertencem. Os africanos não são, de modo algum, adoradores de ídolos em seu modo de culto à Força Suprema, pois agem em consonância com a realidade existencial do homem na terra em face às divindades “et al”. 

No Odù Ìrẹtẹ̀gbè Ifá fala: 
Aquilo com o que nascem não ganha sua própria admiração. 
São os ideais estrangeiros que eles abraçam prontamente. 
Consultou-se Ifá para o anzol que acompanha o peixe (na água). 
Agora, porém, que todos os bens da vida estão fora de nosso alcance, 
Deixe o anzol e nosso Orí atraí-los para nosso proveitoso benefício 

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Predestinação e livre-arbítrio no conceito yorùbá de pessoa


Predestinação e livre-arbítrio no conceito yorùbá de pessoa[1]
Ọlátúnjí Ayọọlá Oyèsílé[2]
Tradução de Mário Filho
131years old priestesses living under the OlumoRock Ancient rock in Beokuta city of Ogun State, Nigeria, Africa
Imagem disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:131years_old_priestesses_living_under_the_OlumoRock_Ancient_rock_in_Beokuta_city_of_Ogun_State,_Nigeria,_Africa.jpg

INTRODUÇÃO
Neste artigo, examinamos as aparentes contradições e paradoxos que são inerentes ao conceito metafísico da pessoa no sistema tradicional de crenças yorùbá, especialmente no que diz respeito à questão da predestinação e do livre arbítrio. Os yorùbá acreditam que uma pessoa teve sua biografia ou história de vida escrita antes de entrar no mundo (por meio do nascimento). É essa biografia que a pessoa vem ao mundo para cumprir - como pode ser vista na noção de Orí (cabeça interior / destino), que é descrita de várias maneiras como Ayànmọ́ (destino que está afixado em uma pessoa, que está além do controle humano e não pode ser alterado, uma vez que o homem é criado com ele, permanecendo assim até o fim de sua vida terrena), Àkúnlẹ̀yàn (destino que é escolhido e recebido enquanto se está ajoelhado) e Àkúnlẹ̀gbà (destino que é recebido enquanto se está ajoelhado). As perguntas que surgem de nossa concepção do destino são: Onde, então, é o lugar da liberdade humana em relação às forças metafísicas? A vida do indivíduo é predestinada ou predeterminada? Que atitude o indivíduo adota diante de alguns desses valores conflitantes? Por exemplo, ele simplesmente se resigna ao destino e considera que "o que será, será" ou luta para formar um significado a partir do "fluxo da vida" existente?
Neste artigo se discute que as contradições e paradoxos inerentes ao conceito yorùbá de pessoa são solucionáveis ​​em sua atitude em relação a questões concretas da vida e da existência. A atitude prática dos yorùbá não apresenta a crença na predestinação como fatalista, uma vez que o indivíduo, ainda, escolhe seu próprio plano de vida e trabalha para sua realização.
Em vez disso, sua crença na predestinação é um construto explicativo que proporciona satisfação emocional e psicológica aos yorùbá quando eles não têm razões naturais, físicas, práticas e empíricas para explicar eventos e ações que os afetam.

ANÁLISE DA PREDESTINAÇÃO E DO LIVRE-ARBÍTRIO NA ONTOLOGIA YORÙBÁ
As opiniões dos estudiosos yorùbá variam sobre a questão da predestinação e da liberdade humana. Alguns estudiosos, por exemplo, Wándé Abímbọ́lá[3], mantêm uma interpretação rigidamente fatalista da predestinação, sugerindo, assim, que a liberdade humana é ilusória, porque nem mesmo os deuses podem mudar o Orí [destino].
Para saber por que esse é o caso, vamos considerar a essência do Orí. (Note-se que estamos aqui usando Orí não apenas como a cabeça física humana, mas como a cabeça não-física ou interior conhecida metafisicamente como destino).
Diz-se que o Orí é a essência da sorte e a força mais importante responsável pelo sucesso ou fracasso humano.[4] O Orí governa a vida do indivíduo e se comunica com outras divindades em seu nome. Além disso, diz-se que aquilo que não foi aprovado pelo Orí de alguém não pode ser aprovado pelas divindades.[5] Isso reforça a crença na predestinação, porque o conteúdo da vida de um indivíduo depende da escolha do Orí. Em termos de conteúdo, pode ser uma vida bem-sucedida, uma vida fracassada, uma vida curta ou uma vida abundante.[6]
No que diz respeito à natureza simpatética[7] do Orí, Abímbọ́lá diz que mostra mais simpatia ao indivíduo do que a qualquer deus.[8] Portanto, o Orí é seu deus pessoal e está mais interessado no bem-estar dessa pessoa. Portanto, se uma pessoa precisa de algo, deve primeiro fazer com que seu desejo seja conhecido por seu Orí antes de qualquer outra divindade.[9] E se o Orí de um homem não estiver em harmonia com sua causa, nenhum deus harmonizará com ele e, consequentemente, ele não terá aquilo que deseja. O Orí que foi selecionado para um indivíduo no céu não pode ser alterado na terra e "de fato os próprios deuses não estão em posição de alterar o destino de um homem."[10]
Do exposto, podemos ver que é dada uma interpretação fatalista da predestinação, na qual o indivíduo não tem o direito de exercer qualquer liberdade, uma vez que tudo foi selado pelo Orí [destino] de um indivíduo. No entanto, por mais fatalista que seja, Abímbọ́lá ainda tenta explicar o fato da liberdade humana por Ìwà Pẹ̀lẹ́ (caráter gentil e benfazejo), uma explicação que, em nossa opinião, não explica totalmente a liberdade do indivíduo. Ademais, isso é contrariado por sua afirmação de que a maioria das pessoas escolhe um Orí ruim e que a tentativa de alterá-lo é inútil. Até o ẹbọ (sacrifício religioso), em vez de ser visto como um meio de mudar o destino humano, é visto por Abímbọ́lá como um meio de comunicação simbólica e ritual entre todas as forças do universo.[11]
            A questão da liberdade do homem ou da sua falta de autonomia pode ser colocada assim: “que papel é reservado para os seres humanos no universo yorùbá, onde o indivíduo não pode agir independentemente de seu Orí e onde está à mercê de dois grupos poderosos, benevolente e malévolo, de poderes sobrenaturais a quem ele tem que fazer sacrifícios incessantemente para sobreviver? O indivíduo realmente importa nesse sistema?”[12]
Ìwà Pẹ̀lẹ́, como afirmado anteriormente, é usado por Abímbọ́lá para explicar a liberdade humana. Segundo ele, Ìwà Pẹ̀lẹ́ e outros princípios menores, como àyà (peito) e ẹsẹ̀ (perna), ajudam a resgatar o homem da estrutura autoritária e hierárquica do universo, no sentido de que eles ajudam o indivíduo a regular sua vida e a evitar colisões com os poderes sobrenaturais, por um lado, e com seus semelhantes, por outro.[13] A razão dada para isso é que Ìwà (caráter) é um dos objetivos da existência humana e Ìwà Pẹ̀lẹ́ (caráter gentil e benfazejo) ajuda o indivíduo a alcançar seus objetivos.
O uso de Ìwà Pẹ̀lẹ́ por Abímbọ́lá para explicar o fato da liberdade humana não é exitoso. Isso ocorre porque nos dizem apenas que Ìwà Pẹ̀lẹ́ ajudará o indivíduo a evitar colisões com forças sobrenaturais e viver em paz com outros seres humanos; porém, quando falamos de liberdade humana, não queremos dizer apenas isso; antes, estamos pensando em uma situação em que o indivíduo exerce certa autonomia referente a questões que afetam sua existência. Abímbọ́lá sugere que muitas pessoas que escolhem o Orí errado no Céu fadadas ao fracasso na Terra,[14] e qualquer tentativa de mudar esse Orí ruim é uma luta infrutífera e sem fim para alcançar o impossível. Isso é sustentado pelo seguinte ẹsẹ̀ Ifá:
Bí ó bá ṣe pé gbogbo orí gbogbo ní í sun pósí
Ìrókò gbogbo ìbá ti tán n'ígbó
A díá fún igba ẹni
Tí ń ti Ìkọ̀lé ọ̀run bọ̀wá sí t'ayé
Bí ó bá ṣe pé gbogbo orí gbogbo ní í sun pósí
Ìrókò gbogbo ìbá ti tán n'ígbó
A díá fún Òwèrè
Tí ń ti Ìkọ̀lé ọ̀run bọ̀wá sí t'ayé
Òwèrè là ń jà
Gbogbo wa
Òwèrè là ń jà
Ẹní t'o yan'rí rere kò wọ́pọ̀
Òwèrè là ń jà
Gbogboo wa
Òwèrè là ń jà[15]

Se todos os homens estivessem destinados a serem enterrados em caixões,
Todas as árvores de Ìrókò teriam sido cortadas na floresta
Consultou-se Ifá para duzentos homens
Quando vinham do céu para a terra
Se todos os homens estavam destinados a serem enterrados em caixões,
Todas as árvores de iroko teriam sido cortadas na floresta
Consultou-se Ifá para a luta
Quando vinha do céu para a terra
Estamos apenas lutando
Todos nós
Estamos apenas lutando.
Aqueles que escolheram bons destinos não são muitos
Estamos apenas lutando
Todos nós
Estamos apenas lutando.

O relato acima de Abímbọ́lá mostra que a liberdade humana é uma ilusão diante da predestinação: é claro que parece haver algumas contradições e inconsistências em seu relato. Por exemplo, se o destino não pode ser mudado nem pelos deuses, então qual é a necessidade de Ìwà Pẹ̀lẹ́ e ẹbọ sugerida como panaceia? Talvez o que Abímbọ́lá está tentando nos apresentar é que Orí é um potente fator causal na existência humana. Apesar de sua afirmação, segundo a qual Orí é inalterável e, portanto, a liberdade humana é ilusória, muitos estudiosos tentaram encontrar um equilíbrio entre predestinação e liberdade humana. Ìdòwú (1962), Mákindé (1984), Gbádégeṣin (1998), Ògúngbèmí (1992) e Ọládipọ̀ (1992) mostram que podemos acomodar facilmente a liberdade humana dentro do modelo explicativo de predestinação.[16] Eles sustentam seus argumentos utilizando as seguintes razões: (1) a predestinação é uma espécie de convênio entre duas partes e, se for o caso, as duas partes sempre podem revisar esse convênio; (2) o uso do sacrifício por meio de Ọ̀rúnmìlà, que também pode ajudar a alterar um destino ruim; (3) Ìwà (caráter) desempenha um papel vital também para melhorar ou mudar o destino de uma pessoa. Existem mitos que sugerem que Olódùmarè (Deus) pode ter simpatia pelas pessoas que são bem-comportadas; (4) o livre-arbítrio dos seres humanos é retratado em sua existência cotidiana prática, na qual a diligência, a formação de caráter, a responsabilidade moral e a prudência desempenham papéis vitais; e (5) é até sugerido que, uma vez que cada pessoa se ajoelha, como indivíduo, para escolher seu Orí, sua liberdade foi estabelecida desse período em diante.
            Muitos estudiosos parecem concordar que a predestinação é um modelo explicativo que é utilizado quando faltam explicações naturais para certas ocorrências. É pertinente, no entanto, examinar algumas das maneiras pelas quais a individualidade e, portanto, a liberdade humana foram explicadas, dada a noção de Orí.
A cosmologia yorùbá, argumenta Ògúngbèmí, apresenta a imagem do homem como um indivíduo solitário que é deixado a percorrer seu caminho através de uma variedade de forças, algumas benignas, outras hostis, muitas ambivalentes, buscando aplacá-las. Em todas as suas tarefas, o homem só é auxiliado por seu Orí, destino, escolhido por ele mesmo antes de vir à terra.[17]
Esse posicionamento é apoiado por Ìdòwú, quando diz que é o Orí [cabeça] que se ajoelha diante de Olódùmarè para escolher, receber ou ter o destino fixado a ele. A imagem, portanto, é de uma pessoa ajoelhada diante de Olódùmarè para escolher ou receber.[18] Portanto, somos obrigados a aceitar que, pelo exposto, pressupõe liberdade de escolha, de ação e de responsabilidade moral.[19]
Pode-se argumentar, no entanto, que as várias posições acima não estabelecem completamente a liberdade do homem. Primeiro, Orí (cabeça interior/destino), no sentido metafísico, tem uma natureza paradoxal e ambivalente, no sentido de que faz parte do indivíduo, pois é a cabeça interior de uma pessoa ou o portador de seu destino. Em outro nível, Orí [destino] não faz parte do indivíduo, porque é o que o Ser Supremo (Olódùmarè) impôs a ele, determinando-o ou pelo indivíduo fazendo uma escolha do Orí por trás de um véu de ignorância, pois ele não sabe sobre o Orí que escolherá. Afinal, o indivíduo não construiu o Orí sozinho. Ele teve que escolher entre os vários Orí que já haviam sido feitos.
Em segundo lugar (e esse argumento está relacionado ao primeiro), quando olhamos para vários nomes que um destino individual ostenta ou para os processos pelos quais escolhemos os Orí, não podemos deixar de negar a autonomia do homem. Por exemplo, certas coisas podem ser ditas nos termos Àkúnlẹ̀yàn, Ayànmọ́ e Àkúnlẹ̀gbà. Àkúnlẹ̀yàn significa aquilo que é escolhido enquanto se ajoelha. Embora pressuponha um elemento de escolha do Orí, não há escolha real porque os vários Orí já estavam preparados e o indivíduo está escolhendo sob o véu da ignorância. Então ele tem uma escolha forçada. Há uma lenda que diz que Àjàlá, o oleiro que moldou o Orí, era muito corrupto e, portanto, podia dar um Orí ruim àqueles que não o subornavam. Àkúnlẹ̀gbà significa escolha em que parte dela vem de sua própria escolha, mas há outra que não. Ayànmọ́ significa aquilo que está afixado em uma pessoa, não há escolha e não é muito diferente de Àkúnlẹ̀gbà.
De nossa análise, pode-se tentar argumentar que, no nível metafísico, o indivíduo não tem liberdade e, portanto, não podemos falar sobre responsabilidade moral ou qualquer outra responsabilidade. No entanto, a crença na predestinação se opõe à vida prática do povo yorùbá.
Vemos os yorùbá tentando combinar duas crenças incompatíveis ou tentando fazer uma se conformar à outra. Argumentou-se que a crença na predestinação não é incompatível com a crença no livre arbítrio. Ọládipọ̀, por exemplo, sugere que, embora os yorùbá adotem o determinismo, é impróprio dar uma interpretação fatalista da noção yorùbá de destino.[20] Argumenta que a atitude yorùbá em relação à vida está em desacordo com o fatalismo. O fatalismo é a doutrina que:
Todo evento foi pré-ordenado e as causas dos eventos estão fora de nós mesmos; que o que quer que ocorra, ocorrerá independentemente do que fazemos; que não podemos agir, uma vez que os eventos estão além do nosso controle, que não há alternativas; essa deliberação é ilusória.[21]
Quais são essas atitudes que contradizem o fatalismo, conforme definido acima? Os yorùbá acreditam que o destino pode ser mudado por meio de Ọ̀rúnmìlà; crendo em divinação e sacrifícios para evitar desastres e atrair boa sorte para si mesmos; eles não hesitam em culpar ou elogiar as pessoas por suas ações; e, finalmente, eles trabalham para ganhar a vida.
Os yorùbá exercem um livre-arbítrio que não é incomparável com o determinismo, porque se diz que o livre-arbítrio depende da existência de certas condições que determinam a natureza das ações humanas. Assumimos que, por nossas ações, como treinamento moral, podemos fazer uma pessoa se comportar de certas maneiras. É isso que a liberdade implica, porque mostra que, embora as ações humanas sejam determinadas, pois são produtos de algumas condições antecedentes na história da pessoa, essas ações não são, portanto, sem liberdade.
Ọládipọ̀, portanto, como alguns outros, sugere que se a concepção yorùbá de destino "não é mais do que uma construção ou dispositivo pragmático para explicar fatores desconhecidos ou ocultos na existência humana, então isso parece ser uma mera extensão de causas naturais.”[22]
Em uma explicação relacionada, Gbádégeṣin afirma que os yorùbá não se contentam em explicar ações humanas baseadas apenas em ações naturais. Isso ocorre porque se caráter, esforço, sacrifício e dinamismo são essenciais para o sucesso, então o conceito de destino não terá nenhum atrativo para eles. Ele crê, no entanto, que os yorùbá não estão prontos ou preparados para eliminar o conceito de destino de sua existência cotidiana porque, em última análise, "nem o bom caráter, nem o dinamismo, nem o esforço garantem um sucesso que não esteja incluído no destino de alguém".[23] Devemos observar que, embora a posição de Gbádégeṣin permita a liberdade em um extremo, ela nega no outro, pois todas as explicações devem, em última análise, ser atribuídas ao destino.[24]
Pode-se argumentar que a crença yorùbá na predestinação e no livre-arbítrio é complexa. O que temos é uma situação em que o yorùbá médio abraça predestinação, determinismo e pragmatismo. Por exemplo, Mákindé argumenta que o sucesso ou o fracasso na vida depende não de ser capaz ou incapacitado ou de ter escolhido um Orí bom ou ruim, mas também do uso de capacidades mentais.[25] Portanto, como o objetivo de todo homem é ter sucesso na vida, é preciso combinar os fatores metafísicos do Orí com os fatores físicos, como o corpo e as habilidades mentais. Em outras palavras, uma pessoa é pragmática se for capaz de combinar os vários fatores de tal maneira que a conduzam ao seu sucesso na vida.
Portanto, podemos dizer, nas palavras de Owómóyèlá que "os yorùbá são um povo pragmático que deposita uma grande confiabilidade na prudência.”[26] Ser pragmático deve ser entendido como significando que os yorùbá enfatizam a prudência em assuntos que dizem respeito ao seu bem-estar.
            O que vale ressaltar é que os yorùbá acreditam tanto em agentes humanos quanto em metafísicos a respeito de sua existência. O yorùbá crê em agentes humanos porque, como ser racional, ele desempenha um papel importante na consecução de certos fins. Por isso, ele trabalha, comporta-se bem na sociedade e se associa a outros seres humanos. Em tudo isso, ele exerce sua liberdade. Isso, também, o torna primeiramente um determinista, porque ele acredita que certas causas são responsáveis ​​por eventos particulares. Sua liberdade o guia na escolha das coisas apropriadas para fazer.
Além disso, para o indivíduo yorùbá, os agentes metafísicos são de importância secundária e de último recurso. Ele apela, por exemplo, ao seu Orí (cabeça interior / destino) quando seus esforços fracassam ou quando ele é dominado por certas sucessos. O Orí também é de último recurso, porque todos os esforços, se eles levam ao sucesso ou fracasso, estão finalmente situados nesse agente metafísico. A razão para isso é, talvez, porque ele acha que a existência transcende o mundo físico e a antecipação da morte o leva a pensar em uma força impressionante que direciona toda a sua experiência.
           
CONCLUSÃO
Embora possa parecer que a crença yorùbá na predestinação e no exercício da liberdade, como vista na vida prática, seja contraditória, paradoxal e inconsistente, nossa análise até agora sugere que não. A crença é bastante abrangente no sentido de que abarca os aspectos físicos e não físicos do homem; em outras palavras, “neste mundo” e no “outro mundo”, e é aqui que reside o pragmatismo dessa visão. O indivíduo quer uma explicação para tudo que ocorre na vida para ele e para os outros. E se a crença nos agentes metafísicos produz resultados positivos ou negativos, ajuda-o, no entanto, a consolidar sua crença como um ser em um mundo misterioso, onde as soluções não podem ser prontamente fornecidas a todos os problemas por meio do esforço humano somente.
Dito tudo isso, notemos rapidamente que com os avanços registrados na ciência e na tecnologia - especialmente por meio da neurociência, biotecnologia e muitas outras pesquisas de base psicológica, agora se entende muito sobre o comportamento humano e o lugar da humanidade no mundo. Isso pode tornar inválidas e vazias aquelas interpretações fatalistas do destino humano por estudiosos dos sistemas tradicionais de crenças. No entanto, também devemos observar que, apesar dessa percepção científica do comportamento humano, não se pode negar que existem certas questões fundamentais sobre o homem que não são passíveis de explicação científica. Por exemplo, perguntas como: Qual é a essência, o propósito ou o objetivo da vida? Por que estou no mundo? O que acontece com a ẹ̀mí (o princípio vital) quando um homem morre? E como alcançamos a felicidade?
As perguntas acima, ao mesmo tempo em que tornam atraentes e relevantes outras fontes de sondagem para a vida humana (como as metafísicas e religiosas), também tornam problemática a interpretação da ciência como solução definitiva para a situação humana. Talvez as questões levantadas aqui exijam mais pesquisas multidisciplinares.




[1] Publicado originalmente no Journal Philosophy, Culture, and Traditions. University of Ibadan. Vol. 2, 2003
[2] Doutor em Filosofia. É professor da Universidade de Ìbàdàn, Estado de Ọ̀yọ́, Nigéria.
[3] W. Abimbola, "Iwapele: The Concept of Good Character in Ifa Literary Corpus", in Yoruba Oral Tradition, ed. W. Abimbola (Ibadan: University Press, 1975); W. Abimbola, IFA: An Exposition of Ifa Literary Corpus (Ibadan: Oxford University Press, 1976).
[4] Abimbola, "Iwapele", p. 390.
[5] Ibid.
[6] Abimbola, IFA, p. 133.
[7] Simpatética pode ser entendida como existir ou operar por meio de uma afinidade, interdependência ou associação mútua; inclinações ou disposição de alguém; agir ou ser afetado por, da natureza de, ou pertencer à uma afinidade especial ou relação mútua; conforme o gênio, a natureza, a essência de. N.T.
[8] Abimbola, IFA, p. 133.
[9] Ibid.
[10] Ibid, p. 146.
[11] Abimbola, "Iwapele," p. 392.
[12] Ibid.
[13] Ibid.
[14] Abímbọ́lá, IFA, p. 146.
[15] Ibid. p. 147.
[16] Ver: S. Gbadegesin, "Eniyan: The Yoruba Concept of Person", in The African Philosophy Reader, ed. P. H. Coetzee and A. P. J. Roux (London: Routledge, 1998); E. B. Ìdòwú, “Olódùmarè: God in Yoruba Belief” (London: Longrnans, 1962); M.A. Makinde, "An African Concept of Human Personality: The Yoruba Example, "Ultimate Reality and Meaning”, Vol. 7 (1984); S. Ogungbemi, "An Existentialist Study of Individuality in Yoruba Culture; Orita, XXIV/2 (1992); O. Oladipo; "The Pragmatic Humanism of Yoruba Culture", Journal of African Studies, Vol. 8, No.3 (1981).
[17] Ogungbemi, p. 105.
[18] Ìdòwú quoted by Ogungbemi, Ibid.
[19] Ibid.
[20] Oladipo, p. 43.
[21] Reuben Abel citado por Oladipo, Ibid.
[22] Oladipo, p. 46.
[23] Ibid.
[24] Gbadegesin, p. 167.
[25] Makinde, p. 198.
[26] Owomoyela, 1981, p. 127.

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