quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Religiosidade na Diáspora - continuidade e permanência


Religiosidade na
Diáspora: continuidade e
permanência[1]
Nei Lopes

 
Foto Maria Ana Krack
Saudando as energias dos Ancestrais Fundadores e com a licença dos Desbravadores de Caminhos, iniciamos este texto dizendo o seguinte: Quase duzentos anos depois da cessação do tráfico atlântico de escravos, as religiões trazidas da África para as Américas configuram um todo de continuidade e permanência. Continuidade por representarem, apesar das naturais acomodações e aclimatações, efetivo legado de tradições africanas imemoriais; e permanência por terem resistido e até se expandido, apesar de todos os obstáculos e adversidades.

Princípios básicos
Parece certo que o sistema de religiões nascido na África, e desenvolvido nas Américas no ambiente da escravidão, expressa uma forma de vitalismo, no qual o valor dominante é a força que habita todos os seres, sejam eles viventes, espirituais, animais ou plantas. Em qualquer circunstância, essa força, modernamente popularizada no Brasil sob o nome iorubano “axé” (cf. Houaiss, 2001: 354) ao qual corresponde o banto “guzo” (Lopes, 2012: 130), deve ser sempre acrescida e jamais diminuída. Acima dela, está a Força Suprema, comparável ao Deus da tradição judaico-cristã.
Origem de toda a energia vital, essa Suprema Força é em geral referida por nomes que expressam sua condição de criador e organizador do Universo ou sua grandeza infinita, pelo que infunde respeito e temor. Mas é tão infinitamente superior e distante, acima de qualquer juízo ou valoração, que não é cultuada, ou seja, não precisa ser honrada ou agradada com preces ou oferendas.
Abaixo desse Ser ou Força situam-se, no sistema, seres imateriais livres e dotados de inteligência, os quais podem ser entendidos como gênios ou espíritos. Os primeiros são seres sem forma humana, protetores e guardiões de indivíduos, comunidades e lugares, podendo, temporariamente, habitar nos sítios e coletividades que guardam, e também no corpo das pessoas que protegem. Já os espíritos são energias de pessoas que tiveram vida terrena e, por isso, imaginados com forma humana. Podem ser almas de antigos chefes e heróis, ancestrais ilustres e remotos da comunidade, ou antepassados próximos de uma família.
Ao contrário do Ser Supremo, gênios e espíritos precisam ser cultuados, para que, felizes e satisfeitos, garantam aos vivos saúde, paz, estabilidade e desenvolvimento. Pois é deles a incumbência de encaminhar e solucionar as grandes questões dos seres humanos. Assim, já que contribuem também para a ordem do Universo, eles devem sempre ser lembrados, acarinhados e satisfeitos, através de práticas rituais específicas. Essas práticas podem, quando simples, ser realizadas pelo próprio fiel. Mas quando complexas devem ser orientadas e dirigidas por um chefe de culto, um sacerdote.
Dentro dessas linhas gerais foi que a religiosidade africana chegou às Américas, onde teve que sofrer aclimatações e adaptações, muitas vezes com a perda de elementos essenciais. Mesmo assim, passados vários séculos desse processo, muitos elementos permanecem; e através deles podemos perceber que, da mesma forma que outros traços culturais determinantes da africanidade na Diáspora, as formas religiosas baseadas no sistema acima esboçado e transplantadas para as Américas, provieram de regiões perfeitamente identificáveis.

Origens
Independente do momento de seu ingresso no Novo Mundo ou mesmo na Europa, as matrizes conhecidas das religiões informadas neste artigo podem ser esquematicamente alinhadas como oeste-africanas e congo angolanas. As primeiras são principalmente oriundas de regiões litorâneas e interioranas localizadas em terras hoje compreendidas da República do Senegal até a da Nigéria; e as segundas, da atual Republica de Camarões até o extremo sul da moderna Angola.
Da porção oeste-africana vieram os elementos e aspectos conhecidos no Brasil e nas Américas como minas, nagôs ou lucumis; jêjes ou ararás, fantes, axantes e calabares; bem como outros referidos por denominações mistas, como “mina-jêjes”, “jêje-nagôs”, “fante-axantes” etc. Já os substratos formadores ditos “congo-angolanos” são aqueles oriundos do centro-oeste africano, muito comumente referidos como “bantos”, denominação que, entretanto, abrange também povos originários do sul e de parte do leste da África.
Façamos aqui um parênteses para explicar que “nagô” é o nome pelo qual foram conhecidos, no Brasil, os iorubás, da atual Nigéria, chamados lucumíes no Caribe; que “jêjes” é a denominação brasileira dos indivíduos do povo Fon, localizado na fronteira da Nigéria com o atual Benin, e no Caribe chamado arará; e que “minas” foi o nome genérico atribuído, durante o escravismo, a indivíduos de diversos povos litorâneos dos atuais Benin, Togo e Gana.

Orixás
Em português, o vocábulo “orixá” (do iorubá òrìṣà, transliterado em espanhol como orichá e em inglês orisha) designa cada uma das divindades do panteão do povo Iorubá, localizado no sudoeste da atual Nigéria e expandido para oeste. Os orixás são gênios, e não espíritos de mortos (que são chamados “egum” ou “egungum”); entretanto, alguns deles são vistos como personagens históricos, como, por exemplo, Odudua, ancestral fundador do povo Iorubá, e Xangô, um dos primeiros reis da cidade-Estado de Oyó.
No Brasil, o culto aos orixás, trazido principalmente de Queto, antiga cidade-Estado iorubana no Daomé, e difundido a partir da Bahia, acabou por ganhar o nome genérico de “candomblé”. A denominação é de etimologia ainda discutida, mas deriva certamente da raiz banta ndombe, através do quimbundo kiandombe, negro, que originou o brasileiro e espanhol candombe, dança ou folgança de negros. Pelo seu cunho depreciativo, a designação é ainda hoje rejeitada pelos praticantes mais ortodoxos. Rejeições à parte, por extensão, o nome “candomblé” designa também a celebração, a festa dessa tradição, o xirê, bem como o espaço comunitário onde se realizam essas festas.
O primeiro registro escrito do termo “candomblé”, ao que se sabe, só ocorre, segundo Parés (2006:126) no ano de 1807, já que antes as práticas religiosas de origem africana eram indistintamente referidas pelos nomes genéricos “batuques” ou “calundus”, que adiante examinaremos. Só por esse tempo, talvez, é que as práticas religiosas de origem africana tenham passado a se caracterizar por rituais privados, realizados ante representações de divindades, em cerimônias públicas com toques de tambor, cânticos, danças e transe mediúnico, segundo o autor citado.
A passagem para o século XIX, marca a chegada maciça, ao Brasil e ao
Caribe, de oeste-africanos escravizados. Então, sobrepondo-se a formas religiosas já existentes ou incorporando elementos delas, o culto aos orixás começa a se estabelecer nas Américas. Conhecido no Brasil como candomblé e em Cuba como Regla de Ocha (Lei dos Orixás); Ocha, ou santería, o culto aos orixás tem por base e fundamento o complexo sistema desenvolvido em torno do culto a um orixá especifico, Ifá ou Orumilá.

Ifá
Entre os iorubás e seus continuadores na Diáspora, Ifá é a denominação do oráculo presidido por Orumilá, o orixá iorubano do saber e da adivinhação, dono do presente do passado e do futuro; nas Américas, por extensão de sentido, o nome Ifá passou também a ser usado como sinônimo de Orumilá.
Ifá é, então, objeto de um culto que é a base do culto aos demais orixás, porque tudo o que fundamenta a doutrina e a liturgia (cores, alimentos, preferências, tabus etc.) vem do saber d’Ele emanado, cuja orientação, indispensável em qualquer crise ou decisão, pode ser buscada através de consulta a diversos métodos divinatórios. Entre esses, há os que Lhe são exclusivos, realizados privativamente pelo babalaô (cf. Houaiss, 2001: 368), e também outros, mais simplificados e populares, entre os quais o jogo de búzios, respondido por Exu-Elegbara, outra divindade fundamental.
No Brasil, a difusão do culto aos orixás, ao longo do tempo, acabou por gerar subprodutos, locais e regionais, entre os quais podemos alinhar os seguintes: batuque gaúcho (modalidade desenvolvida no Rio Grande do Sul, provavelmente a partir de matrizes originárias das cidades iorubanas de Oyó e de Ilexá); xangô (difundida a partir de Pernambuco e estados vizinhos, com traços provavelmente mais ligados à tradição de Oyó); candomblés de congo e angola (prováveis resultantes da assimilação de tradições iorubanas, apesar do uso de vocabulários residuais bantos, como adiante veremos); candomblé-de caboclo, exteriorizado numa espécie de superposição de elementos ameríndios à estrutura do candomblé angola.
Em parte do Caribe, a religião dos orixás proliferou na forma conhecida como Shango Cult, desenvolvida a partir de Trinidad-Tobago, tendo como centro o culto ao orixá Xangô, e também referida apenas como Shango. Já em Cuba, expandindo-se para os Estados Unidos e para a Europa, essa importante forma religiosa desdobrou-se na vertente sincrética denominada santería, que adiante examinaremos. Lembremos ainda que as comunidades de culto   baianas de vertente ou “nação” jêje, cujos fundamentos remontam ao antigo Daomé, atual Benin, são também denominados candomblés, embora não nomeiem as entidades que cultuam como orixás e, sim, “voduns”, como agora veremos.

Voduns
O termo “vodum” é abrasileiramento de vodún, vocábulo que, na língua fon, designa cada uma das divindades da “religião tradicional praticada no sul do Benin”, antigo Daomé (cf. Segurola & Rassinoux, 2000:469), sendo, portanto, correspondente a “orixá”. No Brasil, os voduns são cultuados notadamente nas “casas de mina” e nos candomblés de “nação jêje”, como já mencionado.
Quase sempre associado ao etnônimo específico, o vocábulo “mina” passou, a designar, nas Américas, todo negro não banto. Exemplos: mina-jêje, mina-nagô, mina-fanti etc. Por extensão, o termo designa, no Maranhão os cultos de origem africana praticados nas “casas de mina”. Evidencie-se que a tradicionalíssima Casa Grande das Minas, no centro antigo da capital maranhense, celebrizou-se por ser, ainda no século XX, local de culto a voduns e ancestrais da família real do Daomé, reinante mais de dois séculos atrás. Entre esses seres espirituais, alguns como Zomadono (em Cuba, Somaddonu), Akaba, Ágüe Taroiô etc são cultuados tanto no Brasil quanto na América hispânica, onde ao termo “jêje” corresponde o etnônimo arará.
Em Cuba, a regla arará é então uma espécie correlata ao candomblé jêje no Brasil. E isto pode ser estabelecido pela comparação de denominações étnicas ocorrentes, respectivamente, lá e cá, como as seguintes: Brasil: mina-jêje = Cuba: arará-mina; Br.: jêje-savalu = Cu.: arará-sabalu; Br.: jêje-marrim = Cu.: arará-magino etc.
Nas origens, tanto da mina maranhense quanto da regla arará em Cuba, um episódio histórico, unindo no mesmo contexto a ilha caribenha e o Brasil, chama atenção. Trata-se do evento, na passagem para o século XIX, em que a rainha-mãe do de Abomé, no atual Benin, Nã Agotimé, chegada como escrava ao norte brasileiro teria, aqui, orientado a fundação da já mencionada Casa das Minas. No mesmo contexto, alguns anos depois, Ña Tegué uma das mulheres do rei Guezo (Gezò, filho de Agotimé, reinante de 1818 a 1858), teria chegado a Cuba. Passando à História com o nome hispânico “Florentina Zulueta”, essa daomeana acabou por tornar-se a matriarca de uma grande família-de-santo, uma das principais da Regla Arará (cf. Andreu Alonso, 1992), centrada na Sociedad Africana de Perico, ainda ativa na década de 1980 (cf. Vinueza, 1988: 25-26).
Além da mina maranhense e da regla arará, voduns do antigo Daomé são também cultuados tanto no candomblé jêje, notadamente no chamado “jêje de Cachoeira” (denominação que remete à cidade do Recôncavo Baiano, núcleo irradiador dessa tradição) quanto no vodu, haitiano e cubano, e em outras vertentes religiosas de matriz africana no Caribe. Assim, registramos, a título de exemplo, num quadro simplificado, as presenças brasileiras e caribenhas das
seguintes entidades:
Legbà – Vodum daomeano, “gênio protetor de um indivíduo, de uma casa, de uma camarinha de iniciação, de um mercado ou de uma localidade:  distribuidor do bem e do mal, é o mensageiro dos outros voduns” (cf. Segurola et al, 2000: 309). Mencionado no Brasil, a partir de Maranhão e Bahia, como Leba ou Legba (cf. Houaiss et al, 2001: 1734; 36). No Haiti é referido como Legba (Hurbon: 2004: 16); em Cuba, tida principalmente como a divindade que abre e fecha as portas e caminhos, é mencionada na forma Elegguá e suas variantes ortográficas; e em São Domigos, como Legba (Bolívar Aróstegui et al, 1996: 66-67).
AgbèVodum daomeano que “representa o mar” (Segurola et al, 2000: 28). No Brasil é mencionado na tradição de Casa de Fanti-Axanti, no Maranhão, como um “bonsu” (entidade espiritual mesmo que vodum ou orixá), sendo denominado Ágüé (cf. Ferretti, 2000: 303). No Haiti é chamado Agoué (Bolívar Aróstegui et al, 1966: 185) ou Agwé (Hurbon, 2004: 17); e em São Domingos, segundo Bolívar Aróstegui (op. cit, pag. 186), como Agué-Taroyo, grafia quase igual à do Agüé-Taroyo registrado em Cuba por James et alii (1998: 296).
Xebyoso – Vodum do raio, do trovão. No Haiti, seu nome é grafado Hevioso (Bellegarde-Smith et al, 2011: 213); em Cuba, Hebioso (Andreu Alonso, 1992: 15); e no Brasil, é transliterado como Quevioço (Houaiss et al, 2001).
Avlekétè – Vodum daomeano das praias, da família de Xebyioso. No Haiti, Avelekete (Bellegarde-Smith et al., op. pag. cit.); em Cuba, Avrequeté (James et alii, 1998: 297); no Maranhão: Averequete, Averequê (Cacciatore,1998: 156), em Pernambuco, Afreketê (id., pag. 40)
Lokò – Vodum ligado à arvore gameleira, a morácea Chorophora excelsa. No Brasil, Loco ou Iroco; em Cuba, Iroko; no Haiti, Papa Loko; em São Domingos, Loko (cf. Bolívar Aróstegui et al, 1996: 207-9).

Inquices e Antepassados
Outra das grandes vertentes religiosas de origem africana nas Américas é aquela que congrega as espécies advindas do centro-oeste do continente, referidos genericamente no Brasil como “cultos bantos”; e no Caribe, a partir de Cuba, como religiões congas – todas tendo como base o culto aos inquices e antepassados.
No Brasil, o termo “inquice” designa cada uma das divindades dos cultos de origem banta, em geral compreendidas, como correspondentes aos orixás e voduns jêje-iorubanos, talvez por assimilação ou justaposição. Nesse processo, gênios protetores, heróis e ancestrais de antigos povos bantos teriam sido, em terra brasileira, reconfigurados à imagem das divindades oeste-africanas.
Ainda sobre o vocábulo “inquice”, veja-se que é abrasileiramento do quicongo nkisi, força sobrenatural e, por extensão, o receptáculo ou objeto em que se fixa a energia de um espírito ou de um morto. O termo tinha circulação na Angola colonial, na seguinte acepção: “Objeto sagrado fabricado pelo nganga (ritualista), receptáculo de um espírito protetor, que servia para neutralizar as intenções maléficas dos feiticeiros, que operavam através do ndoki” (Parreira, 1990: 83; 86). Entre os atuais bacongos, segundo García (2006:60), cada clã, família ou pessoa têm seus ba-nkisi, protetores contra más influências. No Brasil, por extensão do sentido, o vocábulo passou a significar o próprio espírito e tornou-se, nos cultos bantos, sinônimo de “orixá”.
Em Cuba, entretanto, talvez numa concepção mais fiel à africana, um nkisi é, nos cultos congos, o artefato, também chamado nganga ou ganga, habitado ou influenciado por um espírito e dotado por ele de um poder sobre-humano. No reino do Congo, segundo nota em Lienhard (1998: 34), os nkisi ou mukisi, tendo cada um deles uma forma e uma denominação própria, desempenhavam funções diversas. Representavam, respectivamente, a chuva, o trovão, o vento, os cultivos, o gado, os peixes do mar, etc. Consoante o mesmo autor (1998: 39), a percepção antropomorfizante do nkisi talvez se explique pela confusão entre ele e certas pessoas influenciadas por sua energia.
Segundo Fu-Kiau (1991: 113), o vocábulo n’kisi deriva da raiz verbal kinsa, cuidar, tratar, significando “o que cuida da vida”, sendo sinônimo de bilongo, remédio. Sempre contido em um futu (saquitel, saquinho, recipiente), ele tanto pode ser seguro, benéfico, ou perigoso para seu dono ou portador. Ele é o resultado da vontade do especialista que o criou; e só esse criador sabe realmente o que ele representa e pode. O Mundo, diz Fu-Kiau, é um futu preparado pelo Ser Supremo, Kalûnga, com tudo o que Ele criou. Assim, a força vital do universo não pode ser totalmente compreendida por nossos sentidos, pois não fomos nós que preparamos e “amarramos” o futu (1991: 113). Daí, nos cultos congos cubanos, o nkisi ter, entre outros (ganga, prenda etc), o vocábulo amarre (veja-se o quicongo kanga, prender, amarrar) como sinônimo.
Acrescentemos que os cultos congos recebem, em território cubano, o nome genérico de regla de palo mayombe, simplificado para regla de palo ou simplesmente mayombe. Seu subsistema gira em torno da flora (raízes, cascas, folhas etc.), daí a possível tradução de sua denominação como “lei dos paus da mata”. Entre os paleros ou mayomberos, o líder de cada comunidade é denominado tata pai, como nos cultos bantos do Brasil. E observemos que Mayombe é o nome de uma região litorânea de Angola.

Calundu e Cabula
Encaminhemos agora nosso raciocínio a partir do exame de duas antigas modalidades de culto: calundu e cabula.
Calundu é termo banto, usado no Brasil com o significado mais corrente de mau estado de ânimo. Estar “de calundu” ou “com os seus calundus” é estar irritado, e de mau humor, com má disposição psíquica ou física. E isto, segundo os antigos, por conta da presença, no quadro espiritual da pessoa, de um kilundu (ancestral, espírito de antepassado), insatisfeito, cobrando atenção e reverência. A acepção de “calundu” como forma religiosa nasceu como redução da expressão “quilombo-de-calundu”, usada, no Brasil colonial e imperial, exatamente para designar o local onde as pessoas iam em busca da cura. O significado estendeu-se para o de culto ou seita, ou ainda , no plural, o de “festas ou celebrações de origem ou caráter religioso, acompanhadas de canto, dança, batuque, e que geralmente representavam um pedido ou consulta a divindades ou entidades sobrenaturais” (Houaiss et al, 2001: 578).
Segundo Silveira (2006: 178), a mais antiga descrição pormenorizada de um calundu, no Brasil, data de 1646. A ocorrência localiza-se na capitania de São Jorge dos Ilhéus, sob a direção de um liberto chamado Domingos Umbata. Veja-se aí que o antropônimo “Umbata” é aportuguesamento do nome de um clã do povo Bacongo, os Mbata Kongo (Laman, 1964: 524). Tornando-se o clã uma tribo, seu nome estendeu-se à sua região nativa, outrora pertencente ao Reino do Congo (Parreira, 1990: 161-2) e hoje integrando o território de Angola. Lembremos, assim, que os umbatas, também referidos como mambatas, zombos, bazombos e muzombos, são um povo banto. Ressalte-se, então, que, embora a denominação “calundu” tenha se estendido a práticas de ritualistas de outras procedências, como as de um jêje chamado Francisco Doçu, na Bahia dos anos 1800, os calundus do Brasil colonial e imperial foram uma instituição certamente banta, de matriz congo-angolana.
Nos seus primórdios, essas práticas, ao que se sabe, não expressavam claramente origens nem especificidades litúrgicas. O que com elas se almejava não era exatamente a adoração de divindades através de um culto organizado e, sim, o aplacamento da suposta ira de uma entidade espiritual ofendida e que se manifestava provocando mal-estar, depressão, doença etc. Mesmo porque, no Brasil, ao que se sabe, a exteriorização das práticas rituais de origem banta caracterizava-se, mais especificamente, como em suas regiões de origem, por práticas de adivinhação e de cura, não sendo notados por danças e   experiências espetaculares de transe ou possessão. Além disso, muitas vezes os ritualistas bantos praticavam seu ofício de modo itinerante, em casa de um e de outro adepto, por exemplo, o que definia o vocábulo “calundu” como modalidade de culto, mas não como local de seu exercício.
Aí então, chegamos à antiga manifestação religiosa denominada “cabula”, que era certamente uma modalidade de calundu mais próxima das formas religiosas de origem africana mais tarde conhecidas.
Cabula - Registrada no século XIX na província do Espírito Santo, a cabula (cujo nome talvez tenha origem no idioma quicongo, no nome próprio Kimbula, de uma entidade espiritual aterrorizante, que mete medo; ou no substantivo kambula, desfalecimento, síncope, talvez em alusão ao transe que alguns fiéis experimentavam durante os rituais); a cabula, prossigamos, é a vertente de culto comunitário banto de registro mais antigo.
Conforme esse registro, feito por um bispo católico e popularizado através de Rodrigues (1977: 255-60), os membros da comunidade cabulista realizavam rituais ao ar livre, no meio da mata, evocando espíritos dos antepassados e utilizando vocabulário de nítida origem banta. Nessa modalidade, cada unidade de culto era chefiada por um “embanda”, a quem todos deviam obedecer, e que tinha como auxiliar um “cambone”, termo provavelmente derivado do bemba, língua falada no Congo, significando “testemunha”. Na cabula, cada um dos espíritos cultuados era um “tata” (pai), que incorporava nos “camanás”, iniciados, adeptos.
A finalidade principal do culto era o contato direto com o “santé”, o conjunto de espíritos (tatas) da Natureza habitantes das matas. Por isso, todos os camanás deviam trabalhar e se esforçar para esse contato, preparando-se através de abstinência e penitências. Devidamente preparado, o camaná incorporava o seu tata protetor, cada um deles conhecido por um nome especial. E alguns recebiam também “bacuros” (bakulu), anciãos, antepassados, que nunca tinham tido vida terrena e habitavam na mata. A reunião ritual dos camanás formava a “engira”, termo derivado do radical banto njila, girar, dançar em roda. As engiras deviam ser secretas, realizando-se alta noite, ora numa casa ora num “camucite” ou “camuxito”, que é o interior da mata ou floresta.
Segundo a crença dos cabulistas, um embanda forte e bem preparado era sempre dotado de poderes além dos naturais: poderia encontrar objetos perdidos; descobrir causas de doenças; conseguir boas caçadas e lavouras férteis; evitar a detonação de armas de fogo; abrir portas, malas ou gavetas trancados, a menos que elas estivessem fechadas com tramela, porque a cruz que se formava quebraria o seu poder. Um bom embanda, segundo se dizia, podia até fazer chover. Também as ervas, bem usadas por um embanda, podiam, além de curar, enfraquecer, enlouquecer ou eliminar um inimigo. Uma garrafada bem preparada, além de curar os males do corpo, poderia fazer, desfazer, impedir ou favorecer noivados e casamentos; levar a alguém fortuna ou miséria. Nos trabalhos mais “fortes”, realizados na sexta-feira da Paixão e na noite de São João, de preferência debaixo de uma figueira ou gameleira, que são árvores de grande poder. Nele, nunca poderiam faltar marafo (cachaça), pemba (pó branco) e fundanga (pólvora). Além do marafo, a água de rio, convenientemente aspergida, era, para os cabulistas, remédio adequado para neutralizar quase todos os tipos de influência. Vemos, então, que a cabula utilizava-se largamente da magia, a qual se dividia em muamba e mandraca. A primeira era a coisa feita, o trabalho. A segunda era o poder superior que o indivíduo adquiria, com auxílio de “rezas brabas” e assumindo compromissos com o santé.
Observemos, finalmente, que alguma das práticas acima enumeradas encontram correspondência em outras antigas práticas rituais de origem banta, como as da regla de palo cubana e mesmo de algumas vertentes do vodu, difundido do Haiti para outras partes do continente americano. Veja-se, ainda, que essa foi a forma fundadora da religiosidade africana no Brasil, certamente presente nos calundus que antecederam os atuais candomblés e que deu origem às primeiras manifestações da umbanda. Na atualidade, o termo “cabula” designa apenas, pelo que sabemos, um ritmo de atabaques executado em candomblés de nação angola ou congo. Mas o termo “embanda” sobrevive na raiz do nome “umbanda”, de mesma origem etimológica, como adiante veremos.

Candomblé, Macumba
Certamente resultado da reunião em um só corpo de várias dessas vertentes noticiadas, os candomblés bantos, de rito “congo” ou “angola” e como tal referidos (“o congo”; “o angola”), são modalidades de culto nos quais prevalece a utilização de linguagem crioulizada originária respectivamente do quicongo e do quimbundo. Estruturalmente, seus símbolos e práticas pouco diferem daqueles usados nos candomblés de matriz nagô; e, recentemente, alguns estudos vêm desvendando aproximações suas com o universo dos antigos terreiros jêjes. Entretanto, as similaridades desses candomblés com outras expressões da religiosidade banta, no Brasil e nas Américas, apenas são perceptíveis, pelo menos aparentemente, no âmbito da linguagem.
Outras modalidades de culto, como o batuque gaúcho, o xangô, a mina maranhense, a umbanda etc., são caudatárias da matriz jêje-nagô, porém muitas vezes intercruzada, essa matriz, com substratos bantos. Nesse particular, retornemos à própria denominação “candomblé”, anteriormente informada; e vejamos que também banto é o termo que, genérica e, muitas vezes pejorativamente, popularmente reúne define, de forma indistinta, os cultos afro brasileiros: macumba.
O vocábulo é de origem banta, mas de étimo controverso. Algumas hipóteses o relacionam ao quimbundo makumba, pl. de dikumba, cadeado, fechadura, em função das “cerimônias de fechamento de corpos” presentes nesses rituais. Mas a origem parece estar no quicongo makumba, pl. de kumba, prodígios, fatos miraculosos, ligado a cumba, feiticeiro. Slenes (2007: 139-40) liga a origem do vocábulo ao que chama “constelação kumba”, i.e., ao grande número de significados do termo quimbundo kumba, alguns integrando o universo do jongo -- folguedo e dança de cunho mágico-religioso –, aí sugerindo macumba (“grupo de poderosos”), como uma das possibilidades etimológicas.

Umbanda e Quimbanda
Muitas vezes mencionada como a mais brasileira das religiões de origem africana, a umbanda é resultado da assimilação de diversos elementos, a partir da ancestralidade banto e do culto aos orixás iorubanos. O vocábulo “umbanda” ocorre no umbundo e no quimbundo, línguas angolanas, significando arte de curandeiro, ciência médica, medicina, derivando do verbo kubanda, “desvendar”. Em umbundo, o termo que designa o curandeiro, o médico tradicional, é mbanda; e seu plural (uma das formas) é imbanda. Em quimbundo, o singular é kimbanda, e seu plural imbanda, também. E nessa mesma língua, o termo umbanda corresponde aos vocábulos “magia” e “medicina”, do português. Observe-se que a medicina tradicional africana é também ritualística, daí o mbanda ou kimbanda ser comumente confundido com o feiticeiro, o que não é correto, já que os papéis são bem distintos: o mbanda cura, o feiticeiro (ndoki em quicongo) faz malefícios.
Surgida no contexto da expansão do espiritismo francês, da idealização do índio como portador da pureza original, e incorporando elementos africanos, mas já cristianizados pelo sincretismo (orixás representados como santos católicos e exus tidos como “batizados”), a umbanda foi-se expandindo. Nessa expansão, segundo alguns de seus teóricos, ela teria assimilado aspectos do hinduísmo, aceitando dele as leis de carma, evolução e reencarnação; e do cristianismo, principalmente as normas de fraternidade e caridade. E isto, além de receber influências da religiosidade ameríndia, o que faria dela a religião brasileira, “mestiça” por excelência.
Nos templos da umbanda, outrora mais referidos como “tendas” (referência indígena) e hoje como “centros”, são realizadas sessões, em geral semanais, nas quais o transe mediúnico é provocado por cânticos e, em geral, toques de tambores. Incorporados, espíritos de pretos-velhos (africanos escravos), caboclos (índios guerreiros, heroicos), crianças, santos (orixás catolicizados), bem como exus (representações criadas a partir do orixá primordial iorubano), dão consultas aos fiéis.
Façamos aqui novo parêntesis, para mostrar que, na umbanda, Exu, o orixá iorubano – sem o qual nada se realiza, pois é o dínamo que movimenta a cadeia das forças vitais do Universo – foi desdobrado em várias entidades, cada uma com uma atribuição especifica. Esse desdobramento resultou também em uma dicotomização que trouxe à luz a quimbanda, segmento em que, supostamente, atuam exus maléficos, malfazejos. Dito isso, prossigamos, para mostrar que, incorporando práticas de origens diversas, a umbanda, vem, pouco a pouco, tendo reduzidos seus traços de africanidade, traços esses que, apesar de tudo, sobrevivem principalmente nas figuras dos pretos-velhos, santificação de espíritos de escravos bantos simbolizados como ancestrais. Essas entidades, além de quase sempre portarem nomes evocativos de sua origem banta (Vovó Cambinda, Maria Conga, Pai Joaquim de Angola etc.) têm como morada mitológica a Aruanda, que nada mais seria que uma evocação do continente africano, simbolizado na cidade ou no porto de Luanda, na atual República de Angola, ou, segundo alguns, no país chamado Ruanda, visto pelos antigos africanos como um paraíso, de beleza e de recursos naturais.
Observemos que, para certas correntes do espiritismo kardecista (vertente cristã que a umbanda também assimilou), a escravidão africana se justificaria pelo fato de que, com o sofrimento, as almas dos cativos teriam evoluído e se aprimorado. Então, enquanto a face africana da umbanda canta, dança, come, bebe e toca tambor, seu lado cristão faz o elogio da dor e do sofrimento, através principalmente dos pretos- velhos. Dentro dessa dinâmica, a umbanda é uma forma religiosa, ainda em transformação, incorporando novas influências. Da religiosidade africana, permaneceram nela o culto a alguns orixás, alguns rituais e alguns símbolos, como os colares de contas, além de algumas formas de sacrifícios e oferendas e a utilização de tambores, em alguns casos. Mas o processo de sua transformação caminha quase sempre no sentido da desafricanização, através de iniciativas que procuram mostrá-la como uma religião mais “científica” e menos “primitiva”. E para tanto foi decisiva a realização, em 1941, do “Primeiro Congresso de Espiritismo de Umbanda”, realizado no Rio de Janeiro.

Omolocô
O Congresso de Espiritismo de Umbanda representaria o momento em que, quase quatro décadas após o “nascimento oficial” da umbanda (para legitimar entidades africanas, ameríndias e infantis, discriminadas nas mesas kardecistas, segundo o mito fundador), se iniciava o processo de embranquecimento e desafricanização, conforme se comprova na seguinte proclamação, divulgada pela organização do congresso: “Umbanda não é um conjunto de fetiches, seitas ou crenças, originárias de povos incultos, ou aparentemente ignorantes; Umbanda é, demonstradamente, uma das maiores correntes do pensamento humano existentes na Terra há mais de cem séculos, cuja raiz se perde na profundidade insoldável das mais antigas filosofias” (cf. Ortiz, 1978: 152).
Foi aí que se estabeleceu a existência de um “oposto diametral” a tudo o que, de “inculto” e “ignorante”, se desejava que a umbanda não fosse, e a que se atribui o nome de “quimbanda” (cf. Ligiéro et al., 1998: 120 – 121). E parece ser aí também que surge, no cenário das religiões afro-brasileiras, o omolocô, tido por alguns como a forma ancestral da umbanda, a “umbanda primitiva”. Atribuindo-lhe origem banta (especificamente angolana, da cultura dos lunda-quiocos), mas buscando a origem de seu nome, estranhamente, na língua iorubá, os ideólogos dessa vertente tiveram como líder o influente sacerdote Tancredo da Silva Pinto.
Entretanto, para alguns, o “omolocô” – embora muita coisa ainda se escreva em seu nome – teria sido nada mais que uma reação carioca e fluminense às concepções eugenistas vigentes na primeira metade do século 20 e norteadoras do mencionado congresso de 1941. A partir da entidade Bonocô, espécie de fantasma das florestas cujas manifestações eram aterrorizantes, cultuada pelos negros tapas na Bahia, associada ao iorubano Orixá-Oco ou Orixa-Ocô, a reação dos líderes dos antigos cultos bantos cariocas e fluminenses, inconformados com o embranquecimento e a demonização de suas práticas, herdeiras da cabula e já tendo incorporado práticas de outras procedências, principalmente católicas, teriam criado o “omolocô” – termo, ao que sabemos, não consignado em nenhum vocabulário de falares baianos e cujo primeiro registro em um dicionário da língua portuguesa, só ocorreu, ao que nos consta, em 2001, com Houaiss et al.

Vodu
Importante modalidade religiosa difundida a partir do Haiti, o vodu (culto aos voduns) é uma síntese de religiões tradicionais do antigo Daomé, dos povos iorubás e dos povos bantos do eixo Congo-Angola (reunindo medicina tradicional e práticas curativas, físicas e mentais) com influências do catolicismo romano.
O complexo cultural do vodu representa um esforço dos africanos escravizados no Haiti no sentido de reconstrução de sua identidade, através não só de uma unidade religiosa como até da criação de uma língua comum. Diante de um cristianismo imposto, esses africanos utilizaram a tática de se adaptarem aos ritos e símbolos católicos, para se integrarem ao sistema. Mas assim mesmo o vodu foi marginalizado, tanto pela ação da Igreja Católica quanto pelo domínio político, econômico e cultural norte-americano. A pesar disso, o vodu (em inglês, voodoo) se faz presente na cultura dos Estados Unidos desde a década de 1790, com seus hougan (sacerdotes) e mambó (sacerdotisas), notadamente em Nova Orleans, Louisiana.
No século XX, os principais templos do vodu, no Haiti, eram assim localizados: no norte do país, o Nan Campeche, de linha ritual Nagô-marrim, um subvertente do Radá; na região de Gonaîves, o La Souvenance ou Nan Souvenance, de linha Radá; o Nan Sukri, de linha congo, e o Cour Lexis, de linha mina ou ammine, também uma ramificação da linha Radá, além daqueles de Ville-Bonheur, Limonade e Deréal, destacados em Romain, 1982. Na região de La Plaine de Cul-de-Sac encontram-se, em geral, todas essas vertentes ou subvertentes rituais praticados nos mesmos templos, nos quais, apesar da variedade de denominações, se observa a permanência de uma hierarquia sacerdotal padronizada. O principal sacerdote masculino do vodu é chamado hougan e a sacerdotisa, mambó. E esses sacerdotes são os responsáveis pela difusão de uma filosofia centrada nos princípios a seguir esboçados.
Segundo a tradição voduísta, o mundo foi criado pelo Gran Met (Grande Mestre), pai de todas as coisas, o qual, depois de completar sua obra, cansado, retirou-se para bem longe. Distante e inacessível, ele entregou o controle do mundo aos loás, os mestres, os senhores. Os loás ou são guinen ou guinin, (da Guiné) africanos, ou crioulos, nascidos no Haiti colonial. Eles têm como seu domínio, conforme sua natureza, a água, o ar, o fogo ou a terra, ou seja, o chão onde pisamos. Os espíritos (luás), que se manifestam através de possessão induzida, de transe, classificam-se em conformidade com o elemento da natureza a que pertençam. Eles podem, ainda, exercer seu mister de ligação entre os humanos e a Divindade Suprema, ou seja, trabalhar, de acordo com sua preferência, nas linhas rituais africanas Radá (arada) e Congó, ou na Petró, de origem crioula.
Afora os de índole maligna, perturbadora ou simplesmente zombeteira, esses seres espirituais comandam o destino do praticante do vodu, desde a época pré-natal até sua vida além da morte, protegendo-o na infância, curando suas doenças, ajudando-o no trabalho. E, em contrapartida, o voduísta deve-lhes obediência e oferendas, num compromisso que não cessa com a morte, já que suas obrigações são herdadas por seus descendentes. Assim, o vodu une gerações, estabelecendo um elo entre os que morreram e os que vivem, e entre estes e os que ainda vão nascer.
Vê-se então que ao definir vodum como “Toda manifestação de uma força que não se pode definir, tudo o que ultrapassa a imaginação ou a inteligência é vodum, isto é, toda coisa misteriosa e que reclama um culto”, Segurola et Rassinoux (:469) foram muito além dos estereótipos, numa formulação que encontra eco em Bellegarde-Smith (op. cit, pag. 33), segundo o qual, tradicionalmente, os haitianos mencionam sua religião por meio da expressão sèvi lwa, “servir aos espíritos”.

Abakuá
No mesmo contexto de estereotipia que envolve o vodu, registrasse em Cuba o nome Abakuá, denominação de uma sociedade secreta iniciática masculina, pertencente ao complexo cultural carabalí, isto é, natural do Calabar, região do sudeste da atual Nigéria, na fronteira com Camarões.
Seu advento data de aproximadamente 1830, quando teriam chegado à Ilha os primeiros escravos provenientes da África Ocidental, sobretudo do território calabar dos povos Efik e Ibibio. A primeira das sociedades por eles criadas parece ter sido a denominada Acabatón, surgida no povoado marítimo de Regla, próximo a Havana, em 1835. Outros núcleos fundadores foram as cidades portuárias de Matanzas e Cárdenas.
Os membros da sociedade, popularmente conhecidos como ñáñigos, sujeitam-se a rígidos rituais que compreendem cerimônias iniciáticas, de invocação de entidades espirituais, de renovação, purificação e funerárias; organizam-se em partidos (seções), dentro de uma complexa hierarquia de dignitários e assistentes; além de utilizarem linguagem esotérica hermética, falada e escrita.
A sociedade abakuá, além de se estruturar como entidade de socorro mútuo, apresenta uma faceta lúdico-religiosa na qual a música representa papel importante. Suas danças são executadas nos ritos e festas da tradição dos ñañigos, principalmente pelo íreme ou diablito, ao som dos enkómo (tambores): bonkó enchemiyá, biankomé, obí-apá e kuchi-yeremá; de sineta (ekón), bastões (itón), chocalhos (erikundi) etc.
Ao tambor que simboliza o segredo da sociedade, e em torno do qual se desenvolve toda uma liturgia, chamam ekwé, ou ecué. As cerimônias festivas (plantes) se realizam na sede do grupo ou nas procissões em que o íreme dança, ao som do coro dos demais participantes. A cada um dos grupos associativos que, desde o século XIX, reúnem ñañigos, dá-se o nome de poténcia.
Em 1913, por causa de alguns choques de rua entre grupos ñañigos inimigos, além de supostos crimes cometidos por africanos ou afrodescendentes tidos como “bruxos”, as festas religiosas dos negros foram objeto de proibição e forte repressão em Cuba. Registre-se que o termo abakuá provém do efik abakpa, denominação aplicada, segundo S.V. Bernal, 1987: 92), a vários grupos de origem bantu que, estabelecidos nos arredores da atual Duke Town, no Calabar, foram assimilados pelo povo Efik, inclusive no aspecto linguístico.

Kumina e Rastafarianismo
A denominação kumina designa uma modalidade religiosa desenvolvida na Jamaica. Segundo Leymarie (1996: 152), trata-se de um culto de possessão de origem conguesa, embora alguns autores apontem a cultura dos povos Akan (fantes, axantes etc.) como matriz; e isto certamente por conta de uma forma anterior, o myal ou myalismo praticada entre os chamados maroons, resistentes à escravização.
Com efeito, o nome kumina parece originar-se no quicongo tumina, mandar, ordenar, legislar, dentro da mesma relação do quimbundo mbanda – mandamento, regra – com o brasileiro “umbanda”. E a religião que nomeia teria se desenvolvido a partir da segunda metade do século XIX, através da ação de trabalhadores assalariados provenientes da África. Manifestação surgida após a dispersão dos maroons (cf. García, 2006: 54), no kumina estão presentes dois elementos fundamentais das religiões dos congos: um é o transe, durante o qual espíritos de antepassados incorporam entre os vivos para prestar-lhes assistência e dar-lhes conselhos. Outro é ausência ou não observância, entre esses espíritos, de uma mitologia, como as dos orixás iorubanos e voduns jêjes, por exemplo.
Em comum com todas as outras vertentes religiosas negro-africanas a kumina tem a invocação e o culto dos seres espirituais, através de cânticos chamados bailo e de outros permeados de elementos linguísticos bantos. As danças em roda, sempre executadas em sentido anti-horário, são acompanhadas por dois tambores kibandu ou kbandu e um improvisador, além do ritmo feito com baquetas percutidas no corpo de madeira de um dos tambores. No local do culto sempre se ergue um “poste central”, como no candomblé e no vodu.
Visto já como enfraquecido principalmente no meio rural, o kumina, à época deste texto, já tinha dado surgimento a uma modalidade urbana na qual, embora se conserve, por exemplo, o transe e o uso de poções neutralizadoras da magia maléfica, hinos protestantes mesclam-se aos cânticos africanos.
Também nascido na Jamaica, o rastafarianismo é um movimento de base religiosa surgido na década de 1930. Sua denominação homenageia o ras (príncipe) Tafari Makonen, entronizado como imperador da Etiópia com o título dinástico de Hailé Selassié I.
Único dentre os países africanos que, através dos tempos, se manteve inatingido pelo tráfico europeu de escravos e radicalmente resistente ao colonialismo, a Etiópia foi durante muito tempo o principal referencial positivo da Diáspora. Além disso, a tradição nacional etíope afirma com orgulho que Menelik I, fundador de dinastia em Axum (a principal cidade-Estado da Etiópia ou Abissínia, na Antiguidade), seria filho da rainha de Sabá (soberana dos Sabeus, descendentes de Sebá, netos de Cam e bisnetos de Noé) com o rei Salomão, filho de Davi. E mais: desenvolvendo e processando, sem ruptura, um amálgama religioso que veio do século IV até nossos dias, os etíopes são a matriz de igrejas negras independentes chamadas “etíopes”, florescidas em várias partes do mundo, inclusive na Jamaica.
O rastafarianismo tem suas raízes na Igreja Ortodoxa Etíope, o mais antigo ramo do cristianismo na África; mas efetivamente começa com o líder político Marcus Garvey. A doutrina do chamado “pan-africanismo garveísta”, formulada a partir de 1925, proclamava que os etíopes eram o povo eleito de Deus; e rejeitava a “Babilônia”, simbolizada nas alegadas decadência e perversão do mundo ocidental. Garvey profetizava também a vinda de um messias etíope, que salvaria da opressão os negros da Diáspora, salvação essa que se concretizaria com seu retorno à África.
Com a coroação, em 1930, do imperador Selassié, também chamado “o Leão de Judá”, os seguidores de Garvey viram naquele fato histórico a consumação da profecia apocalíptica: “Eis que o Leão da Tribo de Judá, a raiz de Davi,  venceu para abrir o livro e seus sete selos” (Apocalipse, 5: 5; cf. Bíblia Sagrada, 1986: 1456).
A partir daí, os garveístas criaram um sistema filosófico e religioso de inspiração africana e, em homenagem ao imperador etíope, deram-lhe o nome rastafari. Do ponto de vista doutrinário, o rastafarianismo prega que todas as instituições derivadas do sistema escravista e colonial devem ser rechaçadas pelos negros, por serem elas a raiz de todo o mal. Mas, em termos litúrgicos, o movimento não dispõe de templos nem de um corpo sacerdotal ou de pregadores, nem práticas rituais fixas, cada um sendo livre para interpretar os textos bíblicos segundo seu entendimento.
Não obstante, o rastafarianismo propagando-se pelos guetos de Kingston, a capital jamaicana, acabou por dar origem a uma nova forma de culto religioso: em 1940, o líder Leonard Howell (que vivera em Gana, em contato com os axantes, no fim do século XIX) fundava na paróquia de Saint Thomas uma comunidade chamada The Pinnacle. De lá, utilizando-se dos riddims (ritmos) e dos cânticos do kumina, Howell fez expandir a nova filosofia, influenciando o próprio kumina original.
No fim da década de 1950, grande número de jovens jamaicanos se converte à filosofia e ao modo de vida rastafariano, mas, julgados subversivos, são perseguidos pela polícia, que, em 1954, arrasa The Pinnacle, e destrói seus tambores e símbolos. Entretanto a difusão do estilo musical reggae acabou por propagar em escala planetária. a filosofia rastafári, e certamente muitas de suas práticas rituais.

Sincretismos e Superposições
Sincretismo é o fenômeno sociológico consistente na combinação, em um só sistema, de elementos de crenças e práticas culturais de diversas fontes. No universo que abordamos neste artigo, o encontro nas Américas, ao longo de todo um processo histórico, das religiões provenientes da África com o catolicismo e com doutrinas e cultos de outras procedências, inclusive nativos do continente, deu origem a formas religiosas sincréticas, como ocorreu e ocorre no vodu, na santería, no candomblé, e de modo ainda mais acentuado na umbanda e suas diversas variantes (no Brasil e no Prata); no culto à entidade Maria Lionza, difundido a partir da Venezuela; na “encantaria” do norte-nordeste brasileiro; no xambá nordestino; e mesmo em algumas segmentações do candomblé ortodoxo.
Em toda a Diáspora, ao associarem orixás, inquices e voduns a santos católicos, os negros antigos respeitosamente, trouxeram para o seu domínio, através de analogias, as divindades de seus senhores. E isto para acréscimo de sua força vital e quase da mesma forma pela qual alguns reis guerreiros da Antiguidade entronizavam em seus templos os deuses dos adversários vencidos.
O fato de certas comemorações das religiões afro-brasileiras serem realizadas em dias santificados pelo catolicismo pode ser visto, também, como resultado uma estratégia dos oprimidos pela escravidão: como não tinham folga em seu trabalho a não ser nos dias santificados dos brancos, eles usavam esses dias para fazer também as suas comemorações, à sua moda. Daí, por exemplo, os nagôs da Bahia estabelecerem as correlações seguintes: comemorarem Oxóssi no dia de Corpus Christi e o associarem a São Jorge (já em Portugal havia, nesse dia, uma procissão dedicada ao “santo guerreiro”, o qual, na visão popular, era também um caçador, pois matara um dragão); Ogum no dia de Santo Antônio (santo que, sendo titular de patente na milícia colonial, era um guerreiro também); Xangô Airá no dia de São João e Xangô Afonjá no de São Pedro (Xangô é o orixá do fogo; e as noites de São João e São Pedro são celebradas com fogueiras) etc.
Uma outra estratégia de associação partiu da representação icônica dos santos católicos. Oxóssi, por exemplo , cultuado na África como uma das divindades da caça e, por conseguinte como um orixá do mato, foi associado na Bahia a São Jorge, pelas razões já apontadas, e, no Rio de Janeiro, a São Sebastião (que é representado amarrado numa árvore dentro do mato); Ogum, na África, o orixá do ferro e consequentemente da guerra, é identificado na Bahia com Santo Antônio, como já vimos, e, no Rio de Janeiro com São Jorge, representado com armadura e portando uma lança.
Em 1983, representativas lideranças da religião dos orixás divulgaram um documento condenando o sincretismo afro-católico, com o argumento central de que ele, necessário durante a escravidão e a repressão, já não teria mais razão de ser. Mas a religiosidade africana no Brasil e nas Américas, por força de outros fatores, já tinha dado margem ao surgimento de formas “cruzadas”, sincréticas, como, por exemplo, o candomblé-de-caboclo, a jurema, e principalmente a umbanda.

Passado e Futuro
Encerrando esta notícia sobre o amplo universo das religiões afro-brasileiras, vale mencionar a forte presença, no norte do Brasil, da “encantaria” , forma religiosa sincrética que cultua os “encantados”, entidades espirituais originárias dos terreiros de mina maranhenses, e que mantém poucos ou nenhum vínculo com a tradição africana dos orixás e voduns, manifestando-se como “turcos”, “austríacos” etc.
Outra vertente sincrética importante foi a que resultou do encontro, a partir da Bahia, do islamismo trazido pelos negros muçulmanos da África Ocidental, no Brasil chamados “malês”, com as religiões dos orixás e dos voduns. Desse encontro nasceu uma antiga linha de culto chamada “muçurumim”, hoje desaparecida ou de existência subterrânea.
Aliás, a “existência subterrânea” foi muitas vezes o destino das religiões africanas nas Américas. Reprimidas, desrespeitadas ou vistas com desprezo, muito delas foi e tem sido vitimado pelo desconhecimento. Sobre isso, recordemos a afirmação do filósofo francês Marcel Griaule que, em 1950, num texto denominado Filosofia e Religião dos Negros, confirmava que a religiosidade africana não se constitui apenas de crendices e superstições, como se supunha. Ela encerra, sim, saber e princípios filosóficos. “Basta nos debruçarmos sobre esse conjunto de crenças e cultos – ele escreveu – para encontrar uma estrutura religiosa firme e digna”. O conhecimento dessa estrutura vem levando à expansão, como é o caso, nos Estados Unidos, da santería, presente hoje em várias unidades da federação, através de organizações importantes e conceituadas.
Por fim, mas não por menos importante, mencionemos este importante testemunho do babalaô cubano Enrique Armenteros, nascido em 1918, transcrito em Fernández Robaina (1997: 87-8) e aqui por nós traduzido, por encerrar um juízo aplicável a todas as práticas religiosas sérias e honestas da Diáspora:
As religiões afro-cubanas não podem ser vistas como algo puramente folclórico; elas são dinâmicas, estão vivas, mais que as demais religiões que há no país ; nenhum palero, nenhum babalaô ou santero sai à rua buscando adeptos: são eles que vêm a nós; nós não ajudamos as pessoas para a vida no outro mundo; nosso mundo é este, e é o dos orixás; eles nos ajudam a torná-lo mais leve e fácil, a seguir adiante. Por isso, nunca a santería se extinguirá, diga quem disser, pois embora a sociedade seja formada, integrada, por gente que pensa de modo diferente; por alguns que tentam impor sua vontade a outros que resistem e lutam contra as imposições, a sociedade é também povoada de orixás que tratam de que as coisas não sucedam tão mal.
Nossas religiões passaram por tudo desde o tempo colonial até o presente. Nunca foram bem acolhidas do ponto de vista oficial da sociedade e do estado, e sim toleradas. Mas apesar de todas as restrições que tinham para cultuar suas divindades e conservar suas religiões, nossos antepassados conseguiram que elas sobrevivessem, burlando as medidas tomadas pelos colonizadores para evitar essas práticas. Foi assim que nossa fé, nossas crenças, viveram e passaram através das gerações, em um meio que sempre foi mais hostil que propício ao seu cultivo.

Que a Energia Vital desse sacerdote e dos demais heróis e heroínas fundadores (Ibaê!) fortaleça e ilumine o autor e os leitores destas linhas!

BIBLIOGRAFIA:
ANDREU ALONSO, Guillermo – Los ararás em Cuba: Florentina, la princesa dahomeyana. La Habana, Editorial de Ciéncias Sociales, 1995.
ARÉS, Luis Nicolau – A formação do candomblé: história e ritual da nação jêje na Bahia. Campinas, SP, Editora da Unicamp, 2006.
BELLEGARDE-SMITH et al (orgs.). Vodou haitiano: espírito, mito e realidade. Rio de Janeiro, Pallas Editora, 2011.
BERNAL, Sergio Valdés – Las lenguas del África subsaharana y el español de Cuba. La Habana, Editorial Academia, 1987.
BÍBLIA SAGRADA. Petrópolis, Editora Vozes, 1986.
BOLÍVAR ARÓSTEGUI, Natalia y PORRAS POTTS, Valentina – Orishá ayé: unidad mítica del Caribe al Brasil. Guadalajara, España, Ediciones Pontón, 1996.
BOLÍVAR ARÓSTEGUI, Natalia y VILLEGAS, C.G.D. de. Ta Makuende Yaya y las reglas de palo monte. La Habana, Ed. Unión, 1998.
CACCIATORE, Olga Gudolle. Dicionário de cultos afro-brasileiros, 3ª ed. Rio, Forense-Universitária, 1989.
FERNÁNDEZ ROBAINA, Tomás – Hablen paleros y santeros. La Habana, Editorial de Ciencias Sociales, 1997.
FERRETTI, Mundicarmo – Desceu na guma: o caboclo do tambor de mina em um terreiro de São Luís: a Casa Fanti.Ashanti. São Luís, EDUFMA, 2000.
FERRETTI, Sérgio F. – Querebentã de Zomadônu: etnografia da Casa das Minas do Maranhão, 3ª. edição. Rio, Pallas, 2009.
FU-KIAU, K.Bunseki. Self healing power and therapy. Nova York, Vintage Press, 1991.
GARCÍA, Jesús “Chucho”. Caribeñidad: afroespiritualidad y afroepistemologá. Caracas, Fundación Editorial El Perro y La Rana, 2006.
HOUAISS, Antonio et al. Dicionário Houaiss Da Língua Portuguesa – Rio de Janeiro, Objetiva, 2001.
HURBON, Laënnec. Les mystères du vaudou. Paris, Gallimard, 2004.
JAMES, Joel et al. – El vodú em Cuba. Santiago de Cuba, Editorial Oriente, 1998.
LAMAN, K.E. – Dictionnaire kikongo-français. Bruxelas, Institut Royal Colonial, Belge, 1936 [Greg Press Inc.1964]
LEYMARIE, Isabelle – Musiques caraïbes. Cité de la Musique, Actes Sud, 1996.
LIENHARD, Martin. O mar e o mato: Histórias da escravidão (Congo, Angola, Brasil, Caribe). Salvador, EDUFBA, CEAO, 1998.
LIGIÉRO, Zeca et Dandara – Umbanda: paz, liberdade e cura. Rio, Nova Era, 1998.
LOPES, Nei – Novo dicionário banto do Brasil, 2ª ed. Pallas Editora, 2012.
__________ – Enciclopédia brasileira da diáspora africana. São Paulo: Selo Negro, 2011.
__________ – O universo religioso afrobrasileiro. In Nação quilombo (org. Haroldo Costa). Rio de Janeiro, ND Comunicação, 2010, págs. 59 – 94.
__________ – Bantos, malês e identidade negra, 2ª ed. Belo Horizonte, Ed. Autêntica, 2006.
__________ – Kitábu, o livro do saber e do espírito negro.africanos. Rio: Senac. Rio, 2005.
ORTIZ, Renato – A morte branca do feiticeiro negro. Petrópolis, Vozes, 1978.
PARÉS, Luis Nicolau – A formação do candomblé: história e ritual da nação jêje na Bahia. Campinas, SP, Editora da Unicamp, 2006.
PARREIRA, Adriano. – Dicionário glossográfico e toponímico da documentação sobre Angola: séculos XV-XVII. Lisboa, Editorial Estampa, 1990.
RODRIGUES, R. Nina – Os Africanos no Brasil, 4ª ed. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1977.
SEGUROLA, B. et RASSINOUX, J. – Dictionnaire fon.français . Madrid: SMA, Societé des Missions Africaines, 2000.
SILVEIRA, Renato da – O candomblé da Barroquinha: processo de constituição
108 Diversas Diversidades do primeiro terreiro baiano de keto. Salvador, Edições Maianga, 2006.
SLENES, Robert W.—“Eu venho de muito longe, eu venho cavando”: jongueiros cumba na senzala centro-africana. In Memória do Jongo (org. Silvia Hunold Lara et al.) . Rio, Folha Seca; Campinas, SP, Cecult, 2007, pags. 109-156.
SOWANDES, Rev. E., et al. – A dictionary of the yoruba language. London – Ibadan, Oxford University Press, 1976.
VINUEZA, María Elena. Presencia arara em la música folclórica de Matanzas. La Habana, Ediciones Casa de las Américas, 1988.




[1] Este artigo do compositor, cantor, sambista, estudioso das culturas africanas, enciclopedista, romancista, poeta e ensaísta Nei Lopes foi originalmente publicado na Coletânea Diversas Diversidades: SOUZA, Rolf Malungo de. Coletânea Diversa Diversidades. Niterói:UFF/CEAD, 2015, p. 82-108.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Uma interpretação naturalística do conceito yorùbá do Orí

Adébọ́lá Babatúndé Ékanọ́lá[1]

Tradução de Mário Filho[2]

Resumo
Orí é um conceito central na concepção de personalidade humana em língua yorùbá. Dizem que os yorùbás (Nigéria) acreditam que a personalidade de cada indivíduo é um Orí predeterminado. O autor mostra que os relatos disponíveis de Orí constituem uma explicação inadequada desse determinismo - o que é popularmente traduzido como destino - no pensamento yorùbá. Em vez da predeterminação espiritualista da personalidade implícita na ideia de destino, ele oferece uma interpretação naturalista dos conceitos yorùbá de Orí. Para isso, ele analisa criticamente o mito yorùbá da criação da pessoa humana, argumentando que esse relato não deve ser considerado literalmente, mas deve ser entendido metaforicamente. Além disso, ele argumenta que um sentido plausível no qual os indivíduos podem ser considerados livres, o que ainda é consistente com o conceito yorùbá de Orí, é que cada pessoa tem o poder de introduzir uma nova energia ou fazer um esforço de vontade de transcender fatores ambientais ou hereditários que possam restringir, obrigar ou predispor a ele a fazer ou não certas coisas.

Abstract
Orí is a central concept in yorùbá-language conception of human personality. The yorùbá (Nigeria) are said to believe that the personality of each individual is predetermined Orí. The author shows that the available accounts of Orí constitute an inadequate explanation of this determinism - what is popularly translated as destiny - in yorùbá thought. In place of the spiritualistic predetermination of personality implied in the idea of destiny, he offers a naturalistic interpretation of the yorùbá concepts of Orí. In order to do so, he critically analyses the yorùbá myth of the creation of the human person, arguing that this account is not meant to be taken literally but has to be understood metaphorically. Furthermore, he argues that a plausible sense in which individuals may be said to be free, which is still consistent with the yorùbá concept of Orí, is that each person has the power to introduce a new energy or to make an effort of the will to transcend environmental or hereditary factors that may want to constrain, compel or predispose him or her to do or not to do certain things. 


Ilé Orí - Copyright © 2019 American Museum of Natural History


Introdução

Orí é um conceito central na linguagem yorùbá no que tange à concepção da personalidade humana[3]. Os yorùbá dizem acreditar que a personalidade de cada indivíduo é predeterminada pelo Orí. Neste paper, pretendo mostrar que as definições existentes sobre Orí constituem uma explanação inadequada de seu determinismo – que é popularmente traduzido como destino – no pensamento yorùbá. Em lugar da predeterminação espiritual da personalidade imbricada na idéia de destino, gostaria de oferecer uma naturalista e humanista definição de Orí.

O mito da Criação

Uma das versões yorùbá para a criação do homem defende que o corpo humano (ará) foi moldado por Òrìṣà-nlá (uma das deidades no sistema religioso tradicional yorùbá - Òṣàlá) de barro. Após ter sido moldado é que o corpo sem vida é infundido com o ẹ̀mí (vida ou sopro de vida) por Olódùmarè (Deus Supremo). O corpo (ará), nessa fase, é vivificado e enviado a Àjàlá (deidade responsável pela confecção do Orí) para selecionar um Orí[4].

O ato de selecionar um Orí na casa de Àjàlá possui três aspectos importantes[5]

- Supõe-se ser uma livre escolha. Todos seriam livres para escolher qualquer Orí disponível na “fábrica” de Àjàlá; 

- O Orí selecionado determina, final e irreversivelmente, o curso de vida e a personalidade de seu possuidor;

- Cada indivíduo ignora o conteúdo ou qualidade do Orí escolhido, isto é, a pessoa que faz a escolha não sabe se o destino que acompanha aquele Orí é bom ou mau. 

Outros termos usados para simbolizar o Orí incluem: 

- Àkúnlẹ̀yàn: aquele que é escolhido ajoelhando-se; 
- Ìpín-Orí: aquele que é atribuído;
- Àyànmọ́: aquele que é escolhido ou afixado por si mesmo; e
- Àkúnlẹ̀gbà: que é recebido ajoelhado.

Além da definição citada anteriormente para a determinação do destino feito através da escolha do Orí na casa de Àjàlá, existem outras versões da crença yorùbá para a determinação do destino. Uma dessas versões afirma que foi Olódùmarè quem conferiu o destino a cada um, o qual é duplamente selado, mais tarde, por Oníbodè (o guardião do portão entre o céu e a terra).[6] No entanto todas as versões disponíveis concordam que o destino é determinado pelo Orí, escolhido ou imposto sobre a pessoa, também concordam que antes das pessoas chegarem no Aiyé (mundo), através do nascimento, estas são totalmente ignorantes do tipo de destino que as espera.

Uma análise crítica do Mito

Nossa proposta é nos concentrarmos na versão do mito criacional que sustenta que o Orí é selecionado na casa de Àjàlá. Nosso objetivo é ver quais implicações filosóficas derivam a partir dele, já que outras versões do mito podem trazer diferentes implicações filosóficas. Muitos dos estudiosos que escrevem sobre o conceito yorùbá da personalidade humana parecem aceitar uma versão ou outra da definição mítica da criação dos seres humanos como descrição do que acontece antes do nascimento de cada pessoa. Alguns filósofos africanos sequer usam o mito criacional como uma premissa primária da qual muitas conclusões sobre a natureza e o significado da vida humana derivam. 

Essas definições míticas são sujeitas, geralmente, a duas críticas. A primeira é que elas levam consequências incompatíveis, enquanto a segunda é que elas não podem ser compreendidas literalmente, mas através de um entendimento alegórico. A seguir apresentamos alguns problemas decorrentes da interpretação literal da versão do mito criacional de Àjàlá: 

- A maneira pela qual os yorùbá dizem perceber a relação entre o Orí em uma mão, e o destino e a personalidade individual em outra, pode não ser consistentemente segura para algumas pessoas. Por exemplo, uma pessoa deformada fisicamente teve seu destino e personalidade determinada por seu corpo deformado e não por uma escolha pré-natal do Orí. Na cultura yorùbá pessoas como os abúkè (corcunda), aro (aleijado), afin (albino) e àràrá (anão) são todos chamados de eni-Òrìṣà (pessoa especial aos Òrìṣà). São-lhe negadas, por força de suas deformidades físicas, todas as oportunidades que são geralmente abertas às pessoas normais. Não lhes é permitido, por exemplo, a função de chefes de família, chefes de aldeia, ou reis. Após a morte, não podem se tornar ancestrais porque não são enterrados no lugar da tumba familiar, mas na floresta má[7]

Ainda, em sociedades que não possuem regras estabelecidas pelas quais as deformidades físicas são tratadas, aqueles que as possuem continuam a ter grandes limitações por causa de suas enfermidades. Um aleijado, por exemplo, nunca poderá aspirar a ser o velocista mais rápido, o melhor nadador ou melhor jogador de futebol. Neste diapasão, nós podemos dizer que um anão não pode estar destinado, pelo seu corpo deformado, a ser um velocista, um nadador, ou futebolista. Parece-nos inaceitável atribuir pelo menos alguns dos aspectos do destino de um anão à escolha pré-natal do Orí, porque a deformidade que o limita e molda seu destino é um aspecto de seu corpo o qual, indo pelo mito da criação yorùbá, foi formado antes da criação do Orí. 

Apesar das alegações que os yorùbá creem que a escolha pré-natal determina, finalmente, o destino e a personalidade do homem (usado genericamente) na terra, Ìdòwú, Mákindé, e Gbádégesin argumentam que os yorùbá acreditam que há alternativas pelas quais um Orí ruim pode ser mudado para melhor e um Orí bom pode ser mudado para pior. Eles afirmam que os yorùbá tem uma opinião de que um mau Orí pode ser melhorado por meio da consulta a Ọ̀rúnmìlà (uma deidade do pensamento tradicional yorùbá), ètùtù (sacrifício) e trabalho duro. Reciprocamente, um Orí originalmente bom também pode ser alterado para mau por ações de pessoas maldosas (tais como Àjẹ́), preguiça ou mau-caráter[8].

A alegação que o destino pode ser alterado parece incoerente com a ideia yorùbá de predestinação, a qual se baseia na crença que a escolha pré-natal do Orí determina, final e irreversivelmente, o destino de e a personalidade de cada ser humano. A opinião de que esse destino é irreversível se reflete em muitos provérbios e ditos yorùbá. Por exemplo, os yorùbá frequentemente dizem que aquilo que o Orí veio adquirir deve ser definitivamente alcançado[9]. Outros provérbios yorùbá aludem à inalterável natureza do destino:

Àkúnlẹ̀yàn ni àdáyé bá, àkúnlẹ̀yàn pin, àdáyé tan ojú nro ni. Àyànmọ́ o gbógun (Nós nos ajoelhamos e escolhemos uma parte, nós entramos no mundo e não estamos contentes. Aquilo que é afixado não pode ser com sabão)[10]

Além disso, indo pela definição de destino como “o que tem que acontecer não pode ser mudado ou controlado”[11], parece improvável que aquilo que é predestinado possa ser alterado. Consequentemente, é contestável que uma crença consistente na predestinação seja sinônima de fatalismo, que é o ponto de vista de que tudo o que acontece é inevitável e não pode ser de outra forma.

Ironicamente, no entanto, muitas das definições existentes do sistema de crença yorùbá sugerem que os yorùbá se amparam nessas crenças incompatíveis. Dizem acreditar que uma seleção pré-natal do Orí determina a personalidade individual e o curso da existência e, também, que o destino do homem pode ser afetado negativa ou positivamente[12]. Enquanto alguns estudiosos tentam explicar como os yorùbá podem aferrar-se consistentemente nessas crenças aparentemente contraditórias, outros têm recorrido a uma interpretação fatalista da ideia yorùbá de destino. Em uma interpretação fatalista, Abímbọ́lá, por exemplo, afirma categoricamente que nem mesmo os deuses podem mudar o destino humano. Mákindé, apoiando a interpretação de Abímbọ́lá, afirma que o melhor que os deuses poderiam fazer, em relação ao destino humano, seria, meramente, guiar sua realização[13]. Disso implica que os humanos não são agentes livres, mas estão, simplesmente, agindo dentro de um roteiro previamente escrito. Dessa forma, eles não podem ser moralmente responsáveis por seus atos.

Para evitar a implicação acima, Mákindé rejeita a interpretação fatalista e introduz sua débil concepção de Orí, que o vê como uma mera potencialidade[14]. Ele afirma que o Orí escolhido no céu é apenas uma potencialidade que precisa fazer algumas coisas antes que seja atualizado. Por isso, necessita trabalhar duro, consultar Ọ̀rúnmìlà que lhe indicará os sacrifícios necessários de forma que um Orí potencialmente bom seja trazido a sua fruição ou um Orí potencialmente mau seja melhorado.

O problema com a concepção de Orí feita por Mákindé, como uma mera potencialidade, parece ser incompatível com a idéia de predestinação, a qual ele busca defender. Predestinação, como bem observado pelo mesmo Mákindé, “pressupõe que uma posição ocupada na terra, bem como as atividades que levaram ou que possam levá-lo a uma posição tal já foram pré-ordenadas no céu e a situação não poderia ser ou ter sido outra”[15]. Isso sugere que todas as coisas identificadas como obrigatórias para realizar uma boa potencialidade do Orí ou melhorar uma ruim são, realmente, como parte do cumprimento de seu destino, quer as atividades do dia-a-dia ou aquelas que tenham sido pré-ordenadas para um indivíduo específico; quando um indivíduo trabalha duro ou consulta o oráculo de Ọ̀rúnmìlà, antes de ser bem-sucedido na vida, ele está meramente seguindo o seu destino. Ele não teria trabalhado duramente ou se consultado com o oráculo de Ọ̀rúnmìlà se isso já não lhe tivesse sido pré-ordenado. Dessa forma, as ações ou omissões, as quais Mákindé classifica como atos de livre vontade em seu esforço em tornar a crença yorùbá na predestinação coerente[16], devendo ser, realmente, classificada como parte daquilo que foi pré-determinado. Essas ações podem ser descritas como livres somente se desistirmos completamente da noção de determinismo pré-natal. Dessa forma, parece-nos que a noção de livre arbítrio e predestinação não podem, coerentemente, ser usadas, em conjunto, num discurso sobre o conceito yorùbá de Orí.

Essencialmente, predestinação equivale a fatalismo, enquanto que uma predestinação não realizada equivale à negação da predestinação. Ou nós afirmamos que há predestinação, no sentido de que tudo aquilo que acontece a um indivíduo ou qualquer passo que ele dá na vida são meramente manifestações de seu destino, ou nós afirmamos que não há, em absoluto, predestinação. Portanto, como Mákindé possui uma débil concepção de Orí, retrata os yorùbá como incoerentes com sua crença na predestinação, acrescenta que eles não crêem realmente na predestinação, mas aparentam crer.

Adicionalmente, Mákindé não se apercebe que dizer que alguma coisa está predestinada é completamente diferente de dizer que há um potencial para uma coisa ou outra. Por exemplo, uma pessoa pode ter um potencial para ser um bom advogado, um político proeminente, ou um distinto acadêmico sem, contudo, tornar-se qualquer uma dessas coisas. Mas, quando dizemos que uma pessoa é predestinada a se tornar alguém, nós não estamos dizendo que ela tenha, meramente, um potencial. Ao contrário, estamos dizendo que tornar-se alguém é inevitável e que não pode ser de outra maneira. Portanto, é um erro definir predestinação como uma mera possessão de potenciais.

Outra dificuldade decorrente da explicação mítica da natureza e origem do homem encontra-se na área do livre-arbítrio e da responsabilidade moral. O mito afirma que a seleção pré-natal do Orí é uma livre escolha, em virtude de que uma pessoa pode ser responsável moralmente por sua personalidade e pelo curso da sua vida. Mákindé, no entanto, argumenta, convincentemente, que não há livre-arbítrio na seleção do Orí na casa de Àjàlá[17]. Seu argumento é assim esboçado: primeiro, todas as escolhas são preferenciais; segundo, os tipos de Orí, bom ou mau, são desconhecidos às pessoas que os selecionam; terceiro, se um indivíduo sabe os tipos de Orí que existem, ele ou ela preferirá o bom ao ruim, portanto, a seleção pré-natal alegada não é um livre-arbítrio; e, por último, nós, certamente, não podemos esperar que ninguém seja moralmente responsabilizado pela qualidade do Orí selecionado, ou pelas consequências que dela possam advir.

O argumento anterior de Mákindé parece estabelecer que a noção de livre-arbítrio e responsabilidade moral não pode ser unida em qualquer discurso a respeito do conceito yorùbá do Orí. Mas, desde que o yorùbá, em seus afazeres quotidianos, entenda a responsabilidade moral e livre-arbítrio em conjunto com a crença na seleção pré-natal do Orí, precisamos fazer novas tentativas para identificar o sentido em que essas noções e crenças podem ser unidas.

Isso nos leva a uma tentativa diferente de conciliar as noções de livre arbítrio, responsabilidade moral e determinação pré-natal do destino por Olúṣẹ́gun Ọladipọ.[18] Ele concorda com a visão de que o destino humano é determinado por uma seleção pré-natal do Ìpín-Orí depois de ser "duplamente selado" tanto por Olódùmarè quanto por Oníbodè.[19] Ele, no entanto, descreve o Orí, simbolizando o destino, como uma "aliança ou acordo com Olódùmarè sobre o que uma pessoa pretende se tornar no mundo".[20] Orí é visto como "uma série de eventos acordados em uma aliança com Olódùmarè".[21] Concebido dessa maneira, Ọladipọ argumenta que é significativo e consistente para os yorùbá dizer que o destino de uma pessoa pode ser mudado por qualquer uma das várias maneiras que identificamos anteriormente.[22] O que ele está dizendo, em essência, é que um acordo anterior entre uma pessoa e Olódùmarè, que foi duplamente selado por Olódùmarè e Oníbodè, ainda pode ser alterado sob certas condições.

Devo dizer que o esforço de Ọladipọ para conciliar a crença na predestinação é bastante atraente. Parece ser muito compatível com as crenças yorùbá na liberdade dos seres humanos e em serem moralmente responsáveis. No entanto, ele precisa esclarecer o que se entende por "destino sendo duplamente selado". Se isso significa algum tipo de aprovação ou ratificação, então eu concordaria que o destino pode ser alterado, assim como qualquer parte de um acordo pode alterar posteriormente alguns aspectos do contrato ou até anulá-lo completamente. Mas parece que o real significado do destino vai além de um acordo ou convênio. Quando dizemos que algo é predestinado, não estamos apenas dizendo que foi acordado ou que está incluso em uma aliança pré-natal. Em vez disso, a principal alegação é que algo não pode ser evitado, não importa o que alguém tente fazer.

Acredito que é na tentativa de sustentar a inevitabilidade do que quer que tenha sido predestinado que a ideia de destino sendo "duplamente selada" por Olódùmarè e Oníbodè é introduzida. Esse selo, na minha opinião, não é apenas um tipo de aprovação ou ratificação, mas um meio de garantir que o destino seja irrevogável, certo e sem possibilidade de mudança.

Como corretamente apontado por E. O. Odùwọlé[23], o fato de que o destino é inalterável é ilustrado em “Os deuses não são os culpados” de Ọlá Rótìmí.[24] Nesse livro, vemos Ọdẹwálé eventualmente matando seu pai e se casando com sua mãe, como foi predestinado, apesar de todos os esforços feitos para impedir a realização desses eventos. De fato, Abímbọ́lá parece estar certo ao afirmar que é simplesmente porque as pessoas acham bastante difícil aceitar um destino ruim que fazem sérias, mas infrutíferas, tentativas de retificá-lo ou alterá-lo.[25] Mesmo consultas com oráculos e a oferta de sacrifícios relevantes não podem trazer nenhuma mudança no destino humano. O melhor que eles podem alcançar, de acordo com Abímbọ́lá, é que "todo homem seria capaz de percorrer o caminho já traçado para ele sem se preocupar com o mato"[26]. Da mesma forma, virtudes como trabalho duro e bom caráter são incapazes de mudar um destino até então ruim. Na melhor das hipóteses, eles parecem ser meros meios pelos quais os destinos são cumpridos. Os yorùbá têm muitos provérbios que descrevem a natureza inalterável do destino. Alguns destes foram mencionados anteriormente. Um provérbio yorùbá afirmando que um bom destino nunca pode ser mudado ou pervertido por agentes do mal é ọmọ ar'aiyé kò le pa kádàrá dá wọn kan le fa ọwọ́ àgó s’ẹ́yìn ni (agentes malévolos nunca podem alterar ou perverter um bom destino, o pior que podem fazer é atrasar seu cumprimento). 

A análise acima do relato de Ọladipọ sugere, ao contrário de sua própria conclusão, que o destino é alterável. Uma implicação disso é que os yorùbá parecem ser irracionais, porque, embora reconheçam que o destino é inalterável, eles ainda seguem em frente, fazendo esforços para mudá-lo. Outra implicação é que a noção de livre arbítrio e crença na responsabilidade moral dos humanos é injustificável e infundada dentro do contexto da cultura yorùbá.

No entanto, antes de aceitarmos essa conclusão, vamos tentar transcender o mito para ver se podemos chegar a uma explicação naturalista mais plausível da ideia yorùbá de Orí e predestinação. Nosso pressuposto, nesse esforço, é que o relato mítico yorùbá da criação humana não deve ser tomado literalmente, mas entendido metaforicamente.


Uma interpretação naturalista dos conceitos yorùbá de Orí

É cediço que os yorùbá creem que cada pessoa é composta de ará, emi e Orí (corpo, espírito e cabeça espiritual). Outros elementos espirituais identificados em alguns relatos do sistema tradicional de pensamento yorùbá são Ọwọ́ e ẹsẹ̀ (mão e perna espirituais). Também é aceito que os yorùbá creem que os indivíduos exercem o livre arbítrio e são moralmente responsáveis por muitas de suas ações.

Normalmente, os yorùbá reconhecem que um indivíduo é livre para fazer ou não fazer certas coisas. Por exemplo, os yorùbá concordam que cada indivíduo é livre para decidir se deve ou não roubar, dizer a verdade ou ser gentil com as pessoas. Mas eles também reconhecem que, em alguns casos, os indivíduos podem não ser livres para fazer ou não fazer algumas coisas. Por exemplo, os yorùbá concordariam que um cego não é livre para ajudar alguém a ler uma carta, assim como um aleijado não é livre para salvar uma criança que se afoga. E é assim porque eles são capazes de distinguir entre as áreas nas quais as pessoas são livres e as áreas nas quais elas não são livres, sabendo que as pessoas são consideradas moralmente responsáveis apenas pelas ações que são livres para realizar ou não realizar.

No entanto, parece que ninguém é livre em sentido absoluto, mesmo nas áreas em que a liberdade pode ser exercida. Isso ocorre porque vários fatores externos sobre os quais as pessoas não têm muito controle e dos quais frequentemente não têm consciência, afetam ou influenciam frequentemente o modo de suas ações e personagens. Estes podem ser classificados em dois tipos: fatores de hereditariedade e fatores ambientais. Os fatores de hereditariedade incluem todas as propensões inatas comuns a uma raça ou família, como certas características físicas, doenças, hábitos e assim por diante. Os fatores ambientais incluem inundações, terremotos, secas e várias mudanças climáticas. Os chamados fatores socioambientais são os acontecimentos na sociedade que podem influenciar os indivíduos, seja no nível de ações específicas, seja no nível de disposições e caracteres. A guerra, por exemplo, geralmente predispõe as pessoas à violência de uma maneira que elas podem não estar predispostas quando a sociedade está em paz. Da mesma forma, condições econômicas adversas podem levar algumas pessoas a vícios como prostituição, roubo e assalto à mão armada.

O fato de que atos humanos, características e disposições não são produtos de escolhas absolutamente livres sugere que a prática de elogiar e culpar as pessoas é realmente sem sentido e injustificável. Isso ocorre porque o sistema de moralidade pressupõe que as pessoas façam escolhas livres. Para salvar a moralidade, no contexto yorùbá, da acusação de falta de sentido, precisamos identificar, com precisão, como as pessoas podem ser consideradas genuinamente livres de uma maneira que seja consistente com o conceito yorùbá de Orí. Uma opção é dizer que um indivíduo só é livre quando não é obrigado a fazer ou é impedido de fazer certas coisas. Ou seja, quando ele está livre de restrições externas. Moritz Schlick é um defensor dessa visão e afirma que "atos livres são atos sem compelimentos".[27] Portanto, ele vê todos os problemas de livre arbítrio e responsabilidade moral como pseudoproblemas.

No entanto, um sentido mais plausível em que os indivíduos podem ser considerados livres, consistente com o conceito yorùbá de Orí, é que cada pessoa tem o poder de introduzir uma nova energia ou fazer um esforço de vontade para transcender fatores ambientais ou hereditários que podem querer restringir, obrigar ou predispor essa pessoa a fazer ou não certas coisas. Por exemplo, ainda encontramos algumas pessoas abraçando e praticando os ideais do pacifismo em situações de guerra, apesar da tendência geral à violência. Da mesma forma, apesar de a pobreza predispor as pessoas a vícios como roubo e prostituição, ainda está aberta às pessoas pobres a opção de roubar ou tornarem-se prostitutas.

Embora o termo vontade seja ambíguo e bastante problemático, para o nosso objetivo atual, ela significa os poderes mentais manifestados ao escolher entre duas ou mais alternativas. Um exemplo pode ser útil para esclarecer isso: suponhamos que Joseph, um indivíduo, esteja ciente de duas coisas: primeiro, a forte convicção de que é sempre moralmente correto dizer a verdade; segundo, é o desejo igualmente forte de continuar vivendo na casa em que viveu a vida toda. Suponhamos, ainda, que esse segundo desejo seja incompatível com sua profunda convicção de que ele sempre deve dizer a verdade, porque a única maneira de continuar vivendo nesta casa é prestar juramento. C. A. Campbell descreve uma situação como a "situação de tentação moral".[28] No exemplo acima, mesmo que o desejo de José de morar na casa em questão seja mais forte do que o desejo de dizer a verdade, resta a escolha de ele exercer ou não algum esforço de vontade que lhe permita dizer a verdade. Se ele decidir contar a verdade, sua ação pode ser corretamente descrita como livre, porque ele poderia ter mentido. Da mesma forma, sua decisão de mentir seria livre, porque ele poderia ter dito a verdade.

Em essência, fatores ambientais e de hereditariedade podem determinar a natureza da situação na qual as decisões são tomadas[29], mas os indivíduos ainda podem exercer seu livre arbítrio ao permitir ou não permitir que fatores de hereditariedade ou ambientais ditem suas decisões e ações. No caso de Joseph, citado, o desejo de continuar morando na casa e o desejo de dizer a verdade constituem pelo menos alguns aspectos da situação moral em que Joseph se encontra. Mas a decisão real de mentir ou dizer a verdade em busca de um dos dois desejos incompatíveis é uma função de seu livre arbítrio.

Na minha opinião, é como um indivíduo exerce seu livre arbítrio, que se manifesta em suas várias escolhas e ações livres, que determina sua personalidade, ou seja, o caráter (Ìwà) de cada pessoa é formado em virtude de seus atos passados ​​de livre escolha e é em reconhecimento disso que os yorùbá elogiam e culpam as pessoas por seus bons e maus caráteres. Por exemplo, um ladrão habitual pode ser responsabilizado por seus vícios de roubar, porque faz parte de seu caráter, em razão de seus atos passados ​​de roubador. Portanto, os yorùbá têm a forte convicção de que Ọwọ́ ẹni la fí ń tún ìwà ẹni ṣe (usamos nossas mãos ou fazemos esforços individuais para melhorar nossas características).

Dado o entendimento acima de como os indivíduos poderiam ser considerados livres, apresentarei agora um entendimento naturalista alternativo dos conceitos yorùbá de Orí e destino. Para começar, deixe-me abordar rapidamente a crença yorùbá na determinação pré-natal do Orí e do destino. Sou da opinião de que os fatores hereditários e ambientais, que influenciam as situações em que as pessoas se encontram, existem antes e independentemente do nascimento dos indivíduos que afetam, contribuem para a visão yorùbá de que determinados aspectos da vida humana são determinados no céu, antes do nascimento. Mas parece não haver boas razões para apoiar a tese pré-natal yorùbá. Em vez de sustentar que existe uma escolha pré-natal do Orí que determina o destino, a personalidade e o curso da vida inteira, argumento que a ideia de um Orí escolhido não passa de uma combinação de todos os vários atos de livre escolha feitos por um indivíduo até qualquer momento específico em sua vida.

Três fatores-chave parecem ser vitais na determinação do curso de vida de uma pessoa: fatores hereditários, fatores ambientais e caráter. A relação entre os dois primeiros fatores e o terceiro é tal que, na formação do caráter, cada pessoa tem a opção de permitir ou não que os fatores de hereditariedade e ambientais ditem a decisão e as ações particulares que formarão o caráter.

Por caráter, entendemos a qualidade distintiva de uma pessoa ou os modos peculiares pelos quais cada pessoa manifesta sua existência.[30] É formado em virtude dos vários atos anteriores, de escolhas feitas pelo indivíduo e é o que, em grande parte, determina o destino das pessoas. Tomemos como exemplo um fumante habitual que desenvolve câncer de pulmão como resultado do vício de fumar. Esse vício constitui parte do caráter do fumante, em virtude do qual faz sentido argumentar que ele ou ela estará predestinado a desenvolver câncer de pulmão. Portanto, pode-se dizer do fumante habitual em questão que é seu Orí desenvolver câncer de pulmão. Passando por isso, a afirmação de Moses Oke de que "o caráter de um homem é o seu destino" é bastante plausível.[31]

Pelas considerações feitas, o que os yorùbá descrevem como uma escolha do Orí é realmente feita por indivíduos durante o curso da existência humana, por meio dos diversos atos de escolhas, não por qualquer escolha pré-natal no céu. Isso implica que o conceito de Orí é significativo apenas em um sentido retrospectivo. É apenas com o benefício da retrospectiva que podemos plausivelmente dizer que um indivíduo está predestinado a ser uma coisa ou outra, ou que um evento está predestinado a ocorrer. Antes de um evento ocorrer, não acho que os yorùbá diriam que está predestinado a ocorrer, exceto se, por alguns poderes especiais, eles tiverem algumas ideias para o futuro. Antes da ocorrência dos eventos, o melhor que se pode dizer é que, dada a maneira como uma pessoa vive, se comporta ou manifesta seu caráter, é provável que ela acabe dessa ou daquela maneira. É somente quando tais previsões acontecem que os yorùbá diriam, com alguma medida de autenticidade, que os eventos foram predestinados.

É interessante notar que várias religiões e culturas do mundo concordam com a visão de que alguns indivíduos são capazes de prever com precisão eventos futuros. A religião tradicional yorùbá não é diferente, pois seus praticantes geralmente consultam o oráculo de Ifá para conhecer o futuro de seus filhos. Isso, na língua yorùbá, é descrito como conhecer o ikọ́sẹ̀ w’aiyé ou o ẹsẹ̀nt’aiyé (colocar os pés no mundo) de uma criança.[32] Tudo o que o oráculo faz é prever o tipo de vida que a criança terá, bem como os principais eventos que ocorrerão em sua vida. Os esforços subsequentes para evitar a ocorrência de alguns eventos desagradáveis ​​revelados, pelo que sabemos, acabariam como esforços infrutíferos e inúteis. Tais esforços podem ser comparados aos esforços para cuidar de um indivíduo doente com uma doença incurável. Assim como os parentes não gostariam de deixar um paciente incurável sem fazer nada para aliviar sua dor e talvez com expectativa de que a doença desapareça milagrosamente, os yorùbá também fazem esforços infrutíferos para alterar um destino predito.[33]

Voltando ao nosso discurso sobre a relação entre destino e caráter, minha posição é que o caráter de uma pessoa, produto de atos passados de livre escolha, é que determina o seu próprio destino na Terra. Existem várias sugestões dessa visão nos escritos de Ìdòwú.[34] Segundo ele, Ọ̀rúnmìlà disse: 
Ìwà nìkàn ló sọ̀ro o.
Ìwà nìkàn ló ṣòro.
Orí kan kìí 'burú l'ótu Ifẹ̀.
Ìwà nìkàn ló ṣòro
Caráter é tudo que é necessário
Caráter é tudo que é essencial
Não há nenhum mau Orí na cidade de Ifẹ̀
Caráter é tudo que é necessário
Em essência, a ideia que se está veiculando é que o bem-estar humano e o sucesso na Terra dependem do caráter de uma pessoa. Da mesma forma, Ìdòwú afirma que "um bom caráter é uma armadura suficiente contra qualquer acontecimento indesejável da vida".[35] Assim sendo, o reconhecimento do fato de que cada pessoa é livre para desenvolver um bom ou mau caráter subjaz à prática dos yorùbá de culpar ou elogiar os indivíduos pela qualidade ou tipo de caráter que possuem e também pelo modo como suas vidas se desenrolam. Há um ditado yorùbá que diz Obìnrin sọ̀wànù pátá, ó lóun ò mórí ọkọ wáyé rárá (uma mulher é desprovida de um bom caráter, porém ela reclama de não estar predestinada a ter um bom marido).

Não obstante, a visão de que o destino é determinado pelo caráter parece ser prejudicada pelo fato de que há ocasiões em que ocorrem acontecimentos significativos na vida das pessoas, que não podem ser explicadas em termos do caráter dos indivíduos envolvidos ou de suas escolhas feitas livremente no passado. Por exemplo, quando uma pessoa que nunca fumou antes ou se envolveu com qualquer coisa que sabemos que pode causar câncer de pulmão de repente desenvolve a doença, os yorùbá podem querer dizer que é o destino dessa pessoa ter câncer, sem que possamos dizer que o câncer é um produto de escolhas e hábitos do passado ou do caráter. Em tais situações, somos incapazes de oferecer qualquer explicação plausível para a doença, exceto dizer que é o destino da pessoa em questão ter essa experiência naquele momento. Esse é o tipo de explicação oferecida quando eventos estranhos e, talvez, trágicos, que desafiam explicações racionais, ocorrem.

Em tais circunstâncias, os yorùbá fazem uso de explicações em termos de destino apenas porque não têm outras explicações racionais para o evento. Isso é semelhante à forma como outras pessoas podem explicar eventos distantes em termos de noções como "vontade de Deus", "acaso" ou "sorte". Ainda assim, é preciso notar que não é em todos os casos em que os yorùbá precisam explicar os eventos que afetam as pessoas ou que eles dão explicações em termos de predestinação. Em muitos casos, eles são capazes de dar explicações naturais plausíveis sobre os motivos que certos eventos ocorrem ou por que uma pessoa teve sucesso ou fracasso na vida.

Por exemplo, os yorùbá geralmente incentivam os jovens a serem diligentes e honestos, a fim de obter sucesso em suas vidas. Assim, não é incomum os yorùbá atribuírem o sucesso de uma pessoa a fatores como trabalho duro, resiliência e paciência, sem qualquer referência ao destino. Da mesma forma, o fracasso é frequentemente explicado em termos de fatores como preguiça, precipitação, tolice e impaciência. Somente quando os yorùbá são incapazes de identificar razões empíricas por trás do sucesso ou fracasso de um indivíduo que recorrem a explicações em termos de destino.

Por exemplo, é só quando um indivíduo, depois de fazer tudo o que é necessário para prosperar em um empreendimento, fracassa é que os yorùbá podem dizer que ele está predestinado a falhar no empreendimento. Mas, neste contexto, a maneira como a noção de destino é empregada é bastante semelhante à maneira como algumas pessoas podem simplesmente dizer que a pessoa é apenas azarada, porque elas não podem oferecer nenhuma explicação plausível para a má sorte.

De fato, o termo yorùbá para sorte é o mesmo que o termo usado para designar destino. Quando os yorùbá querem dizer que uma pessoa tem sorte ou azar, dizem que o ṣe oríre ou o ṣe orí burúkú (ele tem uma cabeça boa ou uma cabeça ruim). Talvez seja porque é feita referência à cabeça quando os yorùbá estão falando sobre o destino, que algumas das dificuldades que cercam a noção yorùbá de Orí e destino são acentuadas.

O que se está sugerido, em essência, é que há pelo menos dois sentidos nos quais os yorùbá empregam a noção de Orí: primeiro, para significar a escolha do caráter feito por cada indivíduo através das escolhas particulares das ações realizadas. Segundo, denotar a falta de explicações plausíveis em uma situação desconcertante que desafia qualquer explicação naturalista ou empírica razoável. Em tais situações, há a tendência de dizer que o que aconteceu não pôde deixar de ocorrer porque foi predeterminado no céu. Mas, como tentamos mostrar, essas explicações não podem ser defendidas racionalmente e são produtos de várias consequências incompatíveis.


Original em: Ékanọ́lá, Adébọ́lá Babatúndé. A naturalistic interpretation of the yorùbá concepts of Orí. Philosophia Africana: Analysis of Philosophy and Issues in Africa and the Black Diaspora, vol. 9, nº 1, março 2006, p. 41-52.
Tradução realizada em setembro de 2019.



[1] Prof. do Departamento de Filosofia da Universidade de Ìbàdàn, Nigéria.
[2] Mário Alves da Silva Filho é Sacerdote afro-religioso. Dirigente do Templo Espiritual Caboclo Pantera Negra e do Ilé Ifá Ajàgùnmàlè Olóòtọ́ Aiyé. Bacharel, Mestre e Doutor em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública pelo Centro de Altos Estudos de Segurança; Especialista em Políticas Públicas de Gestão em Segurança Pública, Especialista e Mestre em Ciência da Religião (PUC/SP), Especialista em História da África e do Negro no Brasil pela UCAM/RJ. Professor do Programa de Pós-Graduação (Mestrado e Doutorado) do Centro de Altos Estudo em Segurança. Endereço eletrônico: ezezide@gmail.com
[3] Wándé Abímbọ́lá, Ifa: An Exposition of Ifa Literary Corpus (Ibadan, Nigeria: Oxford University Press, 1976), 96-115
[4] Olusegun Gbadegesin, "Destiny, Personality and Ultimate Reality of Human Existence: A yorùbá Perspective," in Ultimate Reality and Meaning, vol. 7, no. 3 (1984): 173-188; E. B. Ìdòwú, Olódùmarè: God in yorùbá Belief (London: Longman Ltd., 1962), 169-186.
[5] Wándé Abímbọ́lá, Ifa, cited; Olufemi Morakinyo, "The yorùbá Àyànmọ́ Myth and Mental Health Care in West Africa," in Journal of Culture and Ideas, vol. 1, no. 1 (1983): 87.
[6] E. B. Ìdòwú, Olódùmarè, 174
[7] E. B. Ìdòwú, Olódùmarè, 174-175
[8] Wándé Abímbọ́lá, Ifa.
[9] M. Akin Mákindé, "An African Concept of Human Personality: The yorùbá Example," in Ultimate Reality and Meaning, vol. 7, no. 3 (1984): 197-198; Olusegun Gbadegesin, Destiny, Personality and Ultimate Reality; E. B. Ìdòwú, Olódùmarè.
[10] E. B. Ìdòwú, 171
[11] E. O. Odùwọlé, "The Concepts of Orí and Human Destiny," in Journal of Philosophy and Development, vol. 1, nos. 1 and 2 (1996): 48.
[12] A. S. Hornby, Oxford Advanced Learners Dictionary (Oxford: University Press, 1974).
[13] M. Akin Mákindé, "A Philosophical Analysis of the yorùbá Concept of Orí and Human Personality," in International Studies of Philosophy, vol. XVII, no. 1 (1985): 57.
[14] M. Akin Mákindé, An African Concept, 198
[15] M. Akin Mákindé, An African Concept, 198
[16] M. Akin Mákindé, A Philosophical Analysis, 58.
[17] M. Akin Mákindé, A Philosophical Analysis, 63-66
[18] Olúṣẹ́gun Ọladipọ, "Predestination in yorùbá Thought: A Philosopher's Interpretation," Oríta, vol. XXIV, no. 1-2 (June and Dec. 1992): 36-50
[19] Olúṣẹ́gun Ọladipọ, Predestination, 37.
[20] Olúṣẹ́gun Ọladipọ, Predestination, 41.
[21] Olúṣẹ́gun Ọladipọ, Predestination, 41.
[22] Olúṣẹ́gun Ọladipọ, Predestination, 2-43.
[23] E. O. Odùwọlé, The Concepts of Orí, 48.
[24] Ọlá Rótìmí, The Gods Are Not to Blame (Oxford: Oxford University Press, 1975).
[25] Wándé Abímbọ́lá, Ifa, 63.
[26] Wándé Abímbọ́lá, Ifa, 63.
[27] Moritz Schlick, "Freedom and Responsibility," in P. R. Struhl and K. J. Struhl, Philosophy Now (New York: Random House, 1972), 150.
[28] C. A. Campbell, "In Defense of Free Will," in P. R. Struhl and K. J. Struhl, Philosophy Now, 140.
[29] C. A. Campbell, "In Defense of Free Will," in P. R. Struhl and K. J. Struhl, Philosophy Now, 141-2.
[30] A. S. Hornby, Oxford Advanced Learners Dictionary, 139.
[31] Moses Oke, "Awolowo Metaphysics," in O. Olasope et al., eds., Obafemi Awolowo: End of an Era (Ile-Ife: Obafemi Awolowo University Press Ltd., 1988), 267.
[32] E. O. Ìdòwú, Olódùmarè, 181.
[33] Wándé Abímbọ́lá, Ifa, 63.
[34] E. O. Ìdòwú, Olódùmarè, 155.
[35] E. O. Ìdòwú, Olódùmarè, 155.

O mistério da Macumba :  curiosas revelações sobre os ritos africanos no Brasil Por Carlos Alberto Nóbrega da Cunha (Matéria publicada n...